Carrossel Oiticica

HÉLIO OITICICA, o documentário do sobrinho César, assume um risco fundamental, o de ser um longa-metragem biográfico composto unicamente de materiais preexistentes e sem medo de mergulhar no espírito do seu biografado. Embora os áudios de Hélio forneçam uma tênue linha cronológica, o que prevalece é um carrossel de referências cruzadas, em que o trabalho e as ideias do artista se mesclam à produção dos seus parceiros e à explosão das artes de vanguarda dos anos 1960 a 80. Assim, as favelas cariocas, o rock, o cinema marginal, o Tropicalismo e o underground americano se revelam parentes aproximados pela inquietação de Hélio, em busca do tal “estado de invenção” que ele tanto almejava.

Nada melhor que revisitar tudo aquilo tendo como guia o discurso caudaloso, vaidoso e turbulento do próprio artista. Saí do filme entendendo um pouco melhor o que o levou a avançar da obra fechada para a imersão de si mesmo no torvelinho criador, como um parangolé que busca se confundir com o corpo de quem o veste. A sucessão de planos em movimentos de avanço perto do final expressa bem o desejo de seguir em frente como única forma de não ceder ao que está dado e consolidado na arte.

Um pequeno senão é a falta de legendas em alguns trechos onde a voz de Hélio soa incompreensível. Ainda assim, melhor sem legenda do que com legenda errada, como a que deturpa “uma obsessão total” para “anos 60 e tal”. Mesmo que, como nesse caso, o certo e o errado acabem se equivalendo.

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