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Depois de “O Mercado de Notícias”, a imprensa volta ao escrutínio do cinema com MEIA HORA E AS MANCHETES QUE VIRAM MANCHETE. A pauta é bem diferente da adotada por Jorge Furtado, já que se trata aqui de examinar as questões de um jornal popular de cunho sensacionalista. O Meia Hora, surgido em 2005, notabilizou-se por capas chamativas, manchetes jocosas e muito duplo sentido como chamariz de venda. “Nasceu preto, virou branco e vai virar cinza”, a respeito da morte de Michael Jackson, ou “Fábio Assunção dá um tempo na carreira”, sobre a pausa do ator para tratamento antidroga, são exemplos do tipo de criatividade de que seus editores se orgulham. Estamos, portanto, no campo da ética humana e da cidadania. Mas não creio que este documentário seja menos político que o de Furtado. Afinal, seja falando de política na imprensa de classe média, seja falando de mau-gosto e gozo fascista na imprensa popular, tudo converge para a lógica do jornal-empresa, que visa o lucro acima de tudo, e do jornalismo-entretenimento, que não dissocia informação de diversão. Os responsáveis pelo Meia Hora se justificam dizendo que oferecem “o que o povo quer” e que “a maldade está nos olhos de quem lê”. O filme de Angelo Defanti escala dois professores para criticar o modelo e se contenta em expor opiniões alternadas com manchetes ilustrativas. Talvez não seja muito, mas serve para mostrar a cara, a voz e o jeito de alguns profissionais que estão por trás do jornal nosso de cada dia. Se eles parecem dignos da nossa confiança, essa é uma pergunta que devemos nos fazer a cada chamada, e não só do Meia Hora.


Talvez exista bem pouco de Jorge Furtado em REAL BELEZA. Não temos aí a inteligência fulgurante de “Ilha das Flores” e “O Sanduíche”, nem a arquitetura dramatúrgica caprichada de “O Homem que Copiava” e “Meu Tio Matou um Cara”, nem o humor sardônico de “Saneamento Básico”, nem tampouco o frescor de “Houve uma Vez Dois Verões”. O que temos é uma história pouco inspirada, lugares-comuns sobre busca da beleza, erudição e ressonâncias fálicas do aparato fotográfico, citações e performances tão artificiais quanto um book de modelo. Mas talvez exista, sim, bastante de um outro Jorge Furtado em REAL BELEZA. Afinal, ele sempre foi um cineasta em busca da comunicação com o público através de uma aliança entre entretenimento e intelecto. O que aconteceu nesse último filme foi, quem sabe, um desalinho nessa costura. O entretenimento veio por uma construção novelesca que parece requentar o argumento de “As Pontes de Madison”. E o intelecto se esvaiu na superfície das aparências. Tenho a impressão de que REAL BELEZA revela um Jorge Furtado que cedeu demais a uma de suas facetas e por isso quase não conseguimos reconhecê-lo. Ago 2015


Primeiro longa de Joanna Lombardi, CASADENTRO honra o bom cinema peruano do qual o pai dela, Francisco Lombardi, é um símbolo. Passado inteiramente no interior de uma casa de província, observa minuciosamente as obsessões e insatisfações de um pequeno grupo de pessoas. A idosa Pilar, que vive sozinha com duas empregadas e uma cadela de estimação, recebe na véspera do seu aniversário a visita de um das filhas, que chega junto com a filha dela, a neta e o genro. A súbita ocupação da casa não só abala a rotina de Pilar, como expõe um incômodo generalizado entre as diversas gerações de personagens. O bebê que não dorme direito, a jovem mãe que se vitimiza, a mãe dela que guarda velhas mágoas da velha Pilar e tem ciúmes da cachorra, as rixas entre as duas empregadas, a TV que não funciona direito, as moscas… A exemplo do animal, que segue obstinadamente todos os movimentos da sua dona, cada criatura ali parece ser movida por uma ideia fixa que a aprisiona e define. Joanna narra esse huis clos em bonitos planos fixos, rigorosamente decupados de maneira a criar expectativas sobre o que está fora do quadro. Se o filme pode parecer lento na decolagem, logo percebemos que sua força está na forma como se aferra ao chão da casa e acaba criando um sugestivo retrato de família com o acúmulo de tantas coisinhas miúdas. Uma curiosidade: o subtema do leite materno conecta CASADENTRO a outro sucesso recente do cinema peruano, “La Teta Asustada”.


Ken Loach é tão fiel ao seu ideário de humanismo socialista que tanto pode produzir com ele uma obra-prima como “Terra e Liberdade” quanto um quase-panfleto como esse JIMMY’S HALL. Não há como não ficar do lado de Jimmy Graulton, seus bravos companheiros trabalhadores e os jovens idealistas que se reúnem para aprender, dançar e fazer política num salão da Irlanda profunda nos anos 1930. Mas a mensagem fica bastante esquemática quando do outro lado temos um padre anticomunista caricato, um ogro conservador que espanca a filha e uma polícia que só faz cumprir ordens reacionárias. A coisa toma ares de velha novela de TV, com forças políticas representadas em poucos personagens estereotipados. Ainda assim, é preciso reconhecer que Loach dribla o material ralo com sua habitual perícia em combinar romance, humor e consciência social. Jimmy, eterno condenado ao exílio em Nova York, tem tempo suficiente para deixar sua marca no coração de uma conterrânea e na ética política de uma garotada gente boa. O colorido rural, a música e as danças regionais energizam e dão calor a um filme desprovido de maiores novidades, mas nem por isso desinteressante.


Uma prostituta sexagenária de cabarés na divisa entre França e Alemanha resolve aceitar o pedido de casamento de um cliente e tentar uma mudança de vida. Mas como será deitar-se com um homem em ambiente doméstico e deixar para trás toda uma vida de festas e descompromisso? Mais ainda, como formar uma família quando seus quatro filhos reagem de maneiras diferentes à virtual ausência da mãe por todos aqueles anos?
Esse material, digno de um filme de Mike Leigh, chega ainda mais potente à tela em PARTY GIRL quando se sabe que quase todos os atores – inclusive Angélique e seus filhos – estão desempenhando seus papéis reais, e que um dos filhos, Samuel Theis, escreveu o argumento e integra a trinca de diretores. Desse amálgama de ficção e inspiração verídica, que certamente valeu o prêmio Caméra d’Or em Cannes, PARTY GIRL tira suas virtudes e também suas limitações.
O naturalismo radical da encenação – que pode lembrar ainda Cassavetes ou Pialat – arrasta o espectador para dentro de uma experiência familiar bastante insólita e cria momentos intensos, como as trocas entre Angélique e Cynthia, a filha mais nova criada por uma mãe adotiva, e os pronunciamentos dos filhos no casamento. Mas esse mesmo naturalismo deixa entrever que o aspecto documental não foi suficiente para superar a mera exposição de um impasse. Cru e ocasionalmente tocante, o filme talvez ganhasse ao se descolar um pouco mais de sua plataforma de autenticidade.


Como exercício de cinema universitário, A CASA DE CECÍLIA tem seus méritos: aborda um gênero em voga no cinema jovem brasileiro, demonstra bom sentido de colocação de câmera e decupagem espacial, foge à afobação de fazer um portfólio do talento do cineasta iniciante. Já como cinema profissional, falta um bocado de coisa. A começar pelo ritmo com que é contada a história da menina solitária, encerrada numa casa grande, que pressente presenças misteriosas e recebe a visita de outra menina enigmática que tenta lhe ensinar sobre desapego, a começar pelos entes queridos e os objetos de estimação. A diretora Clarissa Appelt, 26 anos, toma o suspense psicológico como motivo para uma encenação sorumbática, arrastada e monocórdica. Esse equívoco, aliás, tem sido frequente no cinema de terror sóbrio por aqui – vide a produção de Marco Dutra e Juliana Rojas. A pegada melancólica se estende aos movimentos um tanto robóticos das atrizes, embora suas falas sejam quase sempre fiéis ao que se espera de adolescentes naquela condição. O que mais frustra no filme, porém, é o fato de que o clima de inquietação nunca chega a se instalar, mesmo com o apelo a sonoridades “estranhas” e outros chavões como ranger de portas e manchas crescentes de umidade nas paredes. O tema da morte, insinuado aqui e ali, fica também num estranho limbo de indefinição.