O homem que filma prédios

O Instituto Moreira Salles está iniciando hoje (sábado) uma mostra de filmes do alemão Heinz Emigholz. Provavelmente, a maioria de nós nunca tinha ouvido falar dele. Sua obra, porém, é caudalosa. No IMDb constam apenas 36 títulos como diretor, mas os curadores da mostra, Aaron Cutler e Mariana Shellard, afirmam que são mais de 100, além de participações como ator ou narrador em filmes alheios.

Nada, porém, que passe perto de cinemas ou emissoras de TV comerciais. São filmes cheios de silêncio e formas, mais afeitos a galerias de arte, salas especiais e certos festivais. A filmografia de Emigholz se divide em séries e subséries, como explicam Aaron e Mariana nesse texto de curadoria. Seus temas fundamentais são o espaço, a arquitetura e a História. Depois de um início de carreira dedicado a experimentações com a manipulação do tempo na montagem (veja esse trecho de Hotel, 1976: https://youtu.be/lxIS4G7GFuQ), ele passou a se concentrar nas questões trazidas pelas obras de diferentes arquitetos, especialmente modernistas. Seus filmes hoje mais conhecidos fazem comparações estéticas, paralelismos geográficos e conexões históricas entre obras arquitetônicas.

A mostra traz, por exemplo, Perret na França e Argélia, em que o diretor confronta as criações de Auguste e Gustave Perret nos dois países. O curta Dois Museus, um dos mais recentes, pretende comprovar visualmente que um museu projetado nos anos 1980 por Renzo Piano no Texas se inspirou em outro de Samuel Bickels construído em 1948 em Israel: as mesmas superfícies transparentes incorporando a vegetação circundante, semelhantes estratégias de captação da luz natural, ambientes clean, linhas pouco funcionalistas.

zwei-museen

Dois Museus exemplifica bem o que me parece ser o método corrente de Emigholz: tomadas fixas, com duração regular de entre 5 e 10 segundos, do exterior e dos interiores dos prédios. O eixo das imagens varia muito, trocando a habitual “visão ideal” das filmagens de arquitetura por uma seleção mais pessoal e oblíqua dos espaços. Para ele, as edificações exteriorizam o cérebro dos arquitetos. Não há narração nem trilha musical, mas apenas a coleta dos ruídos do ambiente. Com poucas exceções, insinua-se uma preferência por espaços ermos, em que a presença humana não distraia a atenção das formas arquitetônicas. O próprio diretor assina produção, roteiro, câmera e edição de todos os seus filmes.

O longa de abertura da mostra, A Pista de Pouso (The Airstrip, 2013), talvez seja uma súmula de boa parte do trabalho do cineasta. Trata-se da catalogação de diversos edifícios e ruínas na Europa, América Latina, América do Norte e no Pacífico, reunidas pelos ecos que trazem de guerras e destruição. As construções são vistas como depósitos de memórias de genocídios, que abrangem do Império Romano às ditaduras latino-americanas, com ênfase no episódio de Hiroshima durante a II Guerra Mundial. Emigholz conclui o périplo com uma nota pessoal: “Como alemão, devo minha vida às duas bombas atômicas despejadas sobre o Japão”.

Arquitetura, artes visuais, filosofia, poesia e evocação histórica se mesclam nos filmes de Emigholz. Pelo pouco que já pude ver, eles requerem do público um desprendimento em relação à exposição didática e mesmo ao que costumamos esperar de um cinema experimental. Na verdade, são filmes de observação, embora comprometidos com uma agenda pessoal. Emigholz não quer explicar a arquitetura, mas sintonizar o espectador com a sua (dele) experiência dos espaços. Ver esses prédios com calma, por dentro e pelo entorno, e pensar o que eles representam em cada tempo e lugar.

Veja a programação da mostra.

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