Tempos de guerra

Luiz Rosemberg Filho estreia hoje (quarta), no Cine-PE, seu novo longa-metragem, Guerra do Paraguay, o segundo de sua retomada produzida por Cavi Borges. Os tambores de Gabriel Muzak e o plano-sequência de abertura anunciam alguma coisa de muito diferente no trabalho recente do diretor. Não há palavras, mas somente a imagem de três mulheres na árdua tarefa de arrastar uma carroça por uma estrada de terra. O esforço real é evidente, a sensação só aumenta com a ausência de corte. Teria Rosemberg abdicado do verbal para nos oferecer uma experiência apenas física e sensorial nos moldes de um Béla Tarr?

Mas essa impressão não vai durar muito tempo. Logo em seguida conheceremos o soldadinho imperial (Alexandre DaCosta) que volta para casa festejando a vitória do Brasil contra Solano López. Veremos também uma espécie de xamã ferido (Chico Diaz, foto abaixo) que se expressa em idioma desconhecido a respeito de poesia e do sonho de um continente honrado. Esses personagens, e mais uma das mulheres do início, vão travar uma série de diálogos e discussões que ocuparão quase todo o resto do filme. E vão confirmar o cineasta no pleno domínio dos seus elementos.

O manifesto e a colagem têm sido as formas de expressão preferidas de Rosemberg, e seus últimos longas podem ser vistos como filmes-manifesto compostos de colagens orais. A encenação, mais que um suporte, é um pretexto para que role o debate, no qual os textos do autor se imiscuem com citações diversas. O tema da guerra se abre numa pletora de considerações sobre poder, patriotismo, heroismo, demagogia, religião, alienação, etc. O soldado brasileiro, com sua lógica brutalmente inocente da guerra, é seguidamente questionado pelo xamã e sobretudo pela atriz mambembe (Patrícia Niedermeier), com quem se instala também uma querela de gênero (“A guerra não faz parte do universo da mulher”). Trata-se de desconstruir o discurso da ideologia bélica, que está por trás de todos os males do mundo. A guerra, diz Rosemberg, é simplesmente destruição, covardia e estupro.

Não há grande novidade nessa argumentação, assim como não havia na peroração do diretor a respeito da farsa conjugal em Dois Casamentos. Ainda assim, Guerra do Paraguay me parece, por várias razões, mais forte do que o filme anterior. Apesar da decupagem igualmente teatral – em que os atores dialogam de frente não um para o outro, mas para a câmera –, aqui a ausência da unidade espaço-temporal joga a favor de uma maior dinâmica cênica. A excelente performance do elenco também contribui para que as falas não provenham da superfície da boca, mas de algum ponto mais internalizado dos personagens. Estabelecida como voz substituta de Rosemberg nesses dois últimos filmes, Patrícia Niedermeier tem, a meu ver, sua melhor performance no cinema até hoje.

Outro dispositivo interessante é o fato de a atriz mambembe e sua irmã portadora de distúrbios mentais (Ana Abbott) virem dos tempos atuais, o que possibilita uma confrontação do século XIX com o futuro das guerras e o advento de formas de comunicação modernas. Em dado momento, o soldado jacta-se de ser “admirado pela tropa de elite”. Personagem brechtiana por excelência, a de Patrícia quebra a quarta parede do espetáculo e a quinta parede do tempo, além de expor a ignorância dos serviçais do poder. Isso, porém, não a salva do avanço inexorável da barbárie.

Guerra do Paraguay é dedicado a dois filmes clássicos que se referem com acidez às mentiras da guerra: Dr. Fantástico, de Kubrick, e Tempo de Guerra, de Godard. Comuns a Kubrick também são as referências a Nascido para Matar e ao Danúbio Azul de 2001. Creio que esse dois cineastas apreciariam diversas passagens do filme de Rosemberg, e principalmente suas impactantes sequências finais dos horrores da guerra ao som de Strauss.

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