Os sete samurais do Cine PE

Saiba como são os filmes que se retiraram do festival pernambucano em protesto –

Hoje, 23 de maio, estaria começando em Recife a malfadada 21ª edição do Cine PE. O festival foi adiado (ainda sem data definida) depois que sete realizadores e respectivas equipes retiraram seus filmes da programação, em função da presença de obras sobre o filósofo de extrema direita Olavo de Carvalho e o Plano Real. Na carta que divulgaram, eles explicam: “Constatamos que a escolha de alguns filmes para esta edição favorece um discurso partidário alinhado à direita conservadora e grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016. Para nós, isso deixa claro o posicionamento desta edição, ao qual não queremos estar atrelados”. A íntegra da carta pode ser lida aqui.

A atitude gerou certa polêmica no meio cinematográfico, com algumas vozes acusando os cineastas de praticarem censura. Contra essa interpretação insurgiram-se 62 críticas e críticos de cinema de todo o Brasil através de um manifesto em apoio aos realizadores.

Até então, tratava-se de uma discussão exclusivamente política, uma vez que não estava sendo levada em conta a análise dos próprios filmes. Procurei assistir aos seis curtas e um longa retirados e deixo aqui alguns breves comentários sobre cada um.

O SILÊNCIO DA NOITE É QUE TEM SIDO TESTEMUNHA DAS MINHAS AMARGURAS

O longa documental do pernambucano Petronio Lorena mergulha com gosto na prosódia dos poetas populares dos sertões de Pernambuco e da Paraíba. O essencial está nas vozes, claro, mas o filme também cria uma prosódia de imagens do agreste para acomodar muito bem as cantorias, desafios, sonetos, “mourões perguntados” e outras modalidades de poesia que brotam como água da imaginação e da boca dos poetas.

Novos criadores expõem seus versos e recordam os de velhos poetas já desaparecidos. A memória oral se consolida de geração para geração, transformando o que nasceu como improviso em acervo permanente. Toda uma linhagem de inteligência, verve e sensibilidade é desfiada nas histórias, lembranças e exemplos rimados. As legendas são fundamentais para que o espectador nada perca do linguajar colorido e da velocidade com que é empregado.

A maioria é de homens, de várias idades, mas duas mulheres roubam as cenas e boa parte do que fica em nossa memória: a velha Severina Branca, autora do belíssimo poema que forneceu o título do filme, e Graça Nascimento, com seus épicos poemas sobre a “rola” masculina. Todos praticam a poesia em qualquer tipo de situação – das mesas de bar às rodas de improvisação, das conversas do dia a dia a uma visita a doente em hospital. A presença da poesia é tão contagiante que muitas vezes não se reconhece o limite entre a fala comum e o verso.

A cachaça, e mais recentemente a maconha, são combustíveis comumente usados para “exacerbar os sentimentos” dos poetas, como diz um deles. Numa sequência especialmente feliz, Petronio Lorena “embarca” com suas imagens numa viagem psicodélica. Os elos entre costumes do passado e do presente ficam mais claros, assim como a bonita parceria que o filme estabelece com seus personagens. Por mais espontâneo que tudo esteja dentro do quadro, existe uma intenção estética que se associa ao que vem dos poetas sem nunca se sobrepor. Nisso está a graça e a grandeza de O Silêncio da Noite…

ABISSAL

O curta do cearense Arthur Leite é um documentário que nasceu modesto e cresceu no percurso de sua realização. Arthur queria ouvir sua avó sobre uma história enterrada no passado da família. Depois de muito lhe pedir que falasse a respeito do grande amor de sua vida, o neto um dia teve o desejo atendido num depoimento claro, firme, ainda que de completude duvidosa, como indica o excelente diálogo final.

Assim, o filme que originalmente seria sobre o avô desaparecido há 40 anos torna-se um curta sobre um caso típico da crônica afetiva popular de meados do século passado, quando as vidas perturbadas por mentiras e traições dificilmente se reaprumavam depois.

Autor do criativo e insólito Mato Alto, Arthur se posicionou com esse segundo filme entre os melhores curta-metragistas de sua geração. Está a caminho do primeiro longa, que será de ficção. Abissal ganhou como melhor curta brasileiro do É Tudo Verdade, além de outros prêmios.

VENUS FILÓ, A FADINHA LÉSBICA

Helena Ignez, co-autora de algumas das personagens mais sacanas do cinema brasileiro, traz uma peculiar ressonância para a narração desse curta de Sávio Leite. O texto de Hilda Hilst ganha uma visualização adequadamente explícita na animação. Em lugar de uma varinha de condão, Filó vê nascer entre as pernas um portentoso “troço”, que vai atrair um admirador inesperado.

A animação combina o traço de antigas revistinhas pornográficas com uma coloração bem pop e movimentos econômicos, mas insinuantes. Curto e grosso no melhor sentido, o filme já passou por quase 20 festivais internacionais e foi indicado aos Teddy Awards em Berlim.

Sávio Leite, para quem não sabe, é o criador da Mostra Udigrudi Mundial de Animação (Mumia), de Belo Horizonte, e organizador dos livros Subversivos – O desenvolvimento do cinema de animação em Minas Gerais (2013) e Maldita Animação Brasileira (2015), ambos da editora Favela É Isso Aí.

BAUNILHA

Outro curta sobre sexualidade, Baunilha é um documentário estetizado sobre praticantes de BDSM (Bondagem, Dominação e Sado-masoquismo). Depois de Tubarão, este é o segundo curta do recifense Leo Tabosa sobre homens com hábitos eróticos secretos. Mais uma vez, a identidade do personagem central não é completamente revelada, e a narrativa se coloca como uma explanação didática sobre a prática.

Nesse âmbito introduz-se o tema da saudade de um companheiro falecido. Com isso, o narrador reivindica um valor romântico para sua opção erótica e, ao mesmo tempo, afirma a normalidade do BDSM. Segundo ele, o BDSM seria apenas a explicitação de fetiches de dominação e subserviência que estariam dissimulados no relacionamento sexual convencional, o “baunilha”.

Uma interessante relação dialética é estabelecida com as máscaras, que servem para esconder a identidade no filme, enquanto no sexo favorecem a fantasia e a liberação. O curta é explícito e velado em medidas justas, como convém ao seu objeto.

NÃO ME PROMETA NADA

A comunidade chinesa da Tijuca (Rio) é o cenário desse curta de Eva Randolph, conceituada montadora carioca. O trabalho com o elenco de imigrantes chineses cria uma fronteira aparentemente tênue entre ficção e documentário. A quem não lê a sinopse pode passar desapercebida a condição do casal Hua e Ayon. Eles são primos e namoram secretamente. Às vésperas do Ano Novo chinês, Ayon recebe uma passagem só de ida para a China, o que põe em risco seu romance.

O filme se beneficia de um bom trabalho com os atores, uma bela fotografia e uma construção sonora que valoriza muito o extracampo e cria ambiências devassadas pelo som. O dado romântico tem uma ingenuidade bastante autêntica e flerta com a estética pop chinesa na sequência final dos namorados na moto, glorificados por fogos de artifício.

A meu ver, o que obstrui uma comunicação mais eficaz é o caráter muito lacunar da narrativa. Isso não impediu, porém, que o júri do Festival do Rio lhe atribuísse o Troféu Redentor de melhor curta da mostra Novos Rumos.

A MENINA SÓ 

As lacunas, junto a elipses e jump cuts, marcam também o curta catarinense A Menina Só, de Cíntia Domit Bittar. A menina do título sente falta da presença da mãe e inquieta-se com a do pai. Um dia, ela resolve entrar no paiol que tanto atraía a atenção do seu cachorrinho.

O gênero terror é tratado em registro menor, com o ocultamento sendo mais importante que a revelação. O tratamento avermelhado da imagem situa tudo num campo alusivo ao sangue, embora este não dê as caras em nenhum momento. Os temas da misoginia e do parricídio ficam a meio caminho entre o texto e o subtexto.

Rodado em um único dia na chácara da família da diretora, A Menina Só exibe economia de meios e uma decupagem rigorosa.

ILUMINADAS

De Pernambuco vem o curta Iluminadas, de Gabi Saegesser. Enfoca parteiras do interior daquele estado, mas de uma maneira pouco comum a filmes sobre determinado ofício. As senhoras são vistas em suas atividades comuns do cotidiano: capinando, colhendo, lavando panelas, costurando. São, antes de tudo, mulheres silenciosas envolvidas com o prosaico da vida.

Numa espécie de segundo ato é que, enfim, as vemos lidar com os partos e os momentos que os antecedem. Essa função meio sagrada de facilitar o acesso alheio à vida, mediante os mais diversos recursos e simpatias, só aparece depois de as conhecermos. Aí então não vemos mais que suas mãos no ato que as define no mundo. O doc é poético e simples, apesar de alguns desnecessários malabarismos com o foco.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s