12 Cates e 50 manifestos

Um manifesto é um texto que grita. Não existem manifestos doces ou bem educados. Eles são cheios de “nãos”, “nuncas” e “abaixos”. Propõem a destruição de alguma coisa para que outra surja em seu lugar. Um manifesto é um chamado às armas, mesmo que seja às de brinquedo.

Assim como existem coletâneas de manifestos famosos em papel, surge agora um filme que pretende reuni-los em uma antologia performática. MANIFESTO traz a prodigiosa Cate Blanchett em 12 papéis diferentes, oralizando trechos de cerca de 50 manifestos políticos e artísticos. A seleta vai do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels (1848) a Man is Double Man is Copy Man is Clone, da artista apropriadora Elaine Sturtevant (2004). Veja a lista completa aqui.

O filme impressiona mais pela sua execução cênica e pelo humor obtido de certos contrastes do que pelo uso dos manifestos propriamente. Quando Cate aparece como uma dona de casa ultraburguesa trocando a oração à mesa por uma ode à arte feita de coisas sujas e banais, o efeito cômico é irresistível. O mesmo no caso da professora que ensina a uma turma de primeiro grau como usar os lemas do Dogma 95 e a regra sobre “roubo autêntico” de Jim Jarmusch. Ou uma apresentadora de telejornal ancorando uma reportagem sobre arte conceitual.

O uso de locações impactantes e um certo abuso de drones produzem forte impressão inicial, embora não custe muito a se mostrarem mais retóricas do que realmente significativas. Cate se traveste com maquiagens, figurinos, adereços e perucas. Entre as mais divertidas e competentes encarnações estão a viúva dadaísta no funeral e a coreógrafa russa pregando a antiarte.

De resto, o filme transpira um certo diletantismo e uma falta de foco se a intenção era de ser, ele mesmo, um manifesto. Pela desconstrução dos manifestos, talvez? Ou quem sabe contra a mediocridade cultural do cinema médio? Melhor não especular, sob risco de se deparar com a mera superficialidade.

De qualquer forma, MANIFESTO precisa ser compreendido como uma obra que não foi criada prioritariamente para exibição em salas de cinema. Foi concebida como instalação para o Australian Centre for the Moving Image. Assim é o trabalho habitual do alemão Julian Rosefeldt. As 12 personagens eram dispostas em grandes telas por diversas salas, e os textos estavam em versões mais completas.

Foto que tirei da fachada do ACMI quando estive em Melbourne, em março de 2016

No cinema, o que era percurso espacial randômico vira sucessão temporal em ordem obrigatória. Para compensar um pouco essa mudança de perspectiva, a montagem cria algumas dobras, quando personagens voltam a aparecer e temos a sensação de retornar a uma sala por onde já havíamos passado. Mas estamos presos à cadeira, seduzidos principalmente pela versatilidade de Cate Blanchett, a elegância das imagens e alguns toques de teatro do absurdo.

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