Caçadas humanas

DESERTO e TERRA SELVAGEM. Dois cenários inóspitos: o deserto da Califórnia e os campos nevados do Wyoming no inverno. Dois caçadores, um do Mal, outro do Bem. Duas visões maniqueístas da questão social: a violência contra os imigrantes clandestinos e contra a mulher indígena. Dois filmes que trabalham a herança do western com resultados decepcionantes.

Muitos filmes já foram feitos sobre mexicanos tentando entrar clandestinamente nos EUA, mas talvez DESERTO seja o mais simplista de todos. Resume-se a uma caçada humana empreendida por um fanático matador de imigrantes e seu cão de caça contra um pequeno grupo que, após um defeito na caminhonete, tenta cruzar a pé a fronteira no deserto californiano.

Se havia a intenção de representar a intolerância do governo Trump, esta se perdeu na metonímia fácil e redutora. Melhor ver o filme como uma variante do western, com toda a iconografia correspondente: cactus, emboscadas, perseguições em locais arriscados, um vilão feroz, a construção do herói (Gael García Bernal) e a progressão rumo a um duelo final. Tecnicamente, é bem resolvido.

Um suspense brutal mexe com os nervos do espectador e requer tolerância a cenas de grande violência. Algumas incongruências espaciais e a facilidade com que Gael escapa aos tiros prejudica um pouco a verossimilhança geral. No fundo, o filme de Jonás Cuarón (filho de Alfonso Cuarón) investe na emoção mais primitiva do espectador e na relativa recompensa de uma catarse. Não fica muito distante de um reality show de sobrevivência, em que os personagens parecem ter seus destinos traçados desde os primeiros passos da caminhada.



TERRA SELVAGEM, de Taylor Sheridan, parece ter sido feito para a televisão há muito tempo atrás. Num tempo em que mulheres e índios dependiam da voz do homem branco para protegê-los e se fazerem ouvir. A ação se passa numa reserva indígena do Wyoming, onde um rastreador e caçador de animais predadores (Jeremy Renner), traumatizado pela morte trágica da filha adolescente, se depara com o cadáver de outra jovem, filha de índios da região.

Cory, o caçador do Bem, precisa agir pelos índios e guiar uma agente do FBI (Elizabeth Olsen) destacada para o caso, mas bastante despreparada. Está montado o quadro de um chauvinismo hollywoodiano bem antiquado, no qual os homens falam e as mulheres ouvem; os brancos agem e os índios esperam. O chavão psicológico da perda de filhos fornece o background dramático habitual.

Para piorar as coisas, há um estupro com mortes no meio do caminho. Os vilões são homens mal encarados, associados a festas, drogas e punk rock. Sheridan nos “brinda” com um flashback detalhado de tudo o que aconteceu, preparando o campo para o duelo e a catarse final, bem semelhante aos de Deserto. Troque-se a terra árida pela neve e cada ingrediente pelo seu equivalente, e temos a fórmula de um cinema de pura carnificina e revanche.   

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