Uma jovem mulher e um velho homem

Sobre os filmes JOVEM MULHER e LUCKY, dois fascinantes estudos de personagem

Ela tem um toque de Amy Winehouse. Tem algo da “Vagabond” de Agnès Varda. É bipolar, odiada pela mãe, abandonada pelo namorado bem mais velho e, ainda por cima, está grávida. Paula Simonian é uma das personagens mais fascinantes que o cinema europeu produziu nos últimos anos. Ou pelo menos é a isso que somos levados pela performance estonteante de Laetitia Dosch em JOVEM MULHER.

Paula volta a Paris depois de um longo tempo para encarar sua crise pessoal e recomeçar a vida. Carrega o gato do ex-namorado como um último elo com seu passado. Os encontros que mantém com desconhecidos e supostos amigos vão delineando o perfil dessa mulher caótica, carente, vibrante e, em última análise, apaixonante. O drama dança na borda da comédia e do incômodo o tempo todo, guiado pelo especialíssimo olhar de Paula/Laetitia para o mundo. Ela é demasiado humana para caber numa sociedade onde as pessoas se definem por suas funções.

Entre os muitos prêmios conferidos a esse filme de estreia de Léonor Serraille estão o Caméra d’Or de Cannes e o de melhor filme do Janela Internacional de Cinema do Recife. Transcrevo aqui a justificativa que eu e minhas colegas de júri apresentamos no festival pernambucano: “Pelo conjunto de qualidades de direção, roteiro e atuações; pela economia precisa das imagens na descrição da jornada de uma mulher que, ao descobrir-se estrangeira em seu próprio país, passa a fortalecer-se com suas perdas e com o desapego até encontrar sua autonomia”.



Não é difícil imaginar que o Travis de “Paris, Texas” chegou aos 90 anos e vive sozinho num lugarejo semi-morto e mexicanizado do Arizona. Harry Dean Stanton virou o personagem-título de LUCKY, filme inspirado pelo ator que morreria em setembro último aos 91 anos. Fraco das pernas, rosto comprido sempre exprimindo um vazio sugestivo, Stanton ganhou do cinema uma despedida cheia de ternura e ecos autobiográficos (como a história do rouxinol baleado). Lucky, veterano da II Guerra, é cultor do ceticismo e de um niilismo que encontra ressonância no esvaziamento do ego budista. Diz-se sozinho, mas não solitário.

LUCKY é um filme sobre a solidão satisfeita, a iminência da morte e a aceitação do destino. Concorre para isso a presença do “transcendente” David Lynch no papel importante de um homem que precisa assimilar o sumiço do cágado de estimação. O diretor John Carrol Lynch, ator em sua primeira experiência por trás das câmeras, não tem parentesco com David, que foi escalado por sugestão do amigo Stanton.

Daí que LUCKY tece uma rede de referências discretas sobre realidade e transcendência, tempo e imanência. Na interação de Stanton com outros habitantes do lugar, quase todos em idade madura, algumas conversas podem soar subfilosóficas. O filme pode passar a impressão de que se resume a uma longa apresentação de personagem. Mas há também pequenas e doces sutilezas que calam fundo em nossa sensibilidade. Há principalmente Harry Dean Stanton numa penúltima e impecável performance. Sua fragilidade física serve ao personagem tanto quanto a de Jean-Pierre Léaud servia ao monarca de “A Morte de Luís XIV”. Atores como eles deviam viver mais. Como os cágados.

2 comentários sobre “Uma jovem mulher e um velho homem

  1. Carlinhos, Lucky e um filme para múltiplas reflexões, sobre envelhecer, sobre rotina, sobre solidão, são tantos estímulos … na saída e inevitável lembrar dos quadros de Edward Hooper e seus retratos das pequenas cidades americanas , muito bom

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