A coragem de duas documentaristas

Proponho a categoria “documentário de confrontação” a propósito de EL PACTO DE ADRIANA e AMAZONA, dois magníficos documentários latino-americanos dirigidos por mulheres. Eles concorreram ao Prêmio Fenix e estão na minha lista de melhores docs vistos fora do circuito em 2017.

Documentários de confrontação seriam aqueles em que o diretor ou diretora confronta diante da câmera inimigos, desafetos ou simplesmente pessoas com quem tem grandes diferenças, discórdias, queixas etc. Exemplo já clássico é S-21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho, no qual Rithy Panh, que teve sua família dizimada pela ditadura cambojana, filmou antigos torturadores reeencenando suas práticas. Outra variante seria o brasileiro Os Dias com Eleretrato da difícil relação entre a diretora Maria Clara Escobar e seu pai, o filósofo e ex-ativista político Carlos Henrique Escobar. Penso nessa categoria a partir de dois docs a que assisti no ano passado como jurado do Prêmio Fenix de cinema iberoamericano. Lissette Orozco, a diretora de EL PACTO DE ADRIANA, era uma jovem estudante de cinema quando foi buscar sua querida Tia Adriana no aeroporto de Santiago e a viu ser presa logo na chegada. A imagem da tia bonita, elegante, tipo estrela de cinema, sempre desembarcando da Austrália cheia de presentes, começava a mudar subitamente. Adriana era acusada de ser Chany, cruel torturadora a serviço da DINA de Pinochet.

Lissette começa a filmar. Conversa com a tia, que nega ter tido qualquer contato com presidiários. Que era apenas secretária bilingue, fazia transcrições, e curtia a vida de “rica” ao lado do primeiro escalão militar. Fotos a mostram de braço dado com Manuel Contreras, grande comparsa de Pinochet. Ao falar de seu trabalho, admite que recebeu treinamento para “arrancar informações” e “quebrar pessoas”. Ainda hoje acha que isso era necessário contra “os comunistas”. Daí sua contradição básica quanto a ter estado ou não com os presos.

Liss segue filmando e desconfiando. Sua obstinação e coragem não têm tamanho. Conversa com a mãe (solidária à irmã), a avó com Alzheimer, pesquisadores da ditadura, testemunhas diretas que estiveram com Chany. Obtém seguidas confirmações de que Adriana participava diretamente de sequestros e sessões de tortura. E era implacável.

Adriana foge para a Austrália violando a liberdade condicional. A sobrinha continua se comunicando com ela por Skype. A tia achava que o filme poderia ajudar a inocentá-la. Por isso aceitava filmar-se nas conversas com a sobrinha, assim como vendo reportagens contra ela na TV. Liss, ao que tudo indica, desconfia que o filme não vai ajudá-la, mas sim incriminá-la ainda mais. E segue investigando com um distanciamento que na verdade é uma forma de justiçamento.

O que se segue são confrontações excruciantes, ameaças e chantagens, na medida em que a situação de Adriana se complica cada vez mais. Lissette obtinha registros de tudo, não sabemos como. Por fim, quando o filme se encerra, ela terá cumprido magistralmente seu papel de documentarista e ido até o limite do possível como membro da família. Filmou o inimigo “dentro de casa”, uma façanha rara. E fez uma obra extraordinária, das mais contundentes e intimamente desafiadoras que um(a) cineasta pode fazer.

O pedido de extradição de Adriana Rivas está no Facebook. Ela safou-se até hoje por ser cidadã australiana.



AMAZONA é outro filme de imagens fortes e profundo questionamento familiar. A diretora Clare Weiskopf resolveu fazer um documentário sobre sua mãe, Valerie, inglesa emigrada para a selva colombiana desde jovem. Foi para lá por amor, casada com um colombiano. Separaram-se, e o marido ficou com a guarda das duas filhas.

Clare nasceu de uma segunda união, com o irlandês Jim. Valerie virou hippie com Jim e a pequena Clare. Rodavam a Irlanda vendendo artesanato e bijuterias. Depois foram para a Colômbia, viveram da roça até se separarem.

Carolina, a irmã mais velha, morreu enquanto fazia um doc sobre Armero e a cidade foi devastada pelo vulcão (evento abordado no filme brasileiro Cidades Fantasmas). Valerie, então, embrenhou-se sozinha na selva em busca de liberdade e sentido para a vida. Clare ficou cuidando do irmão mais novo, Diego. Desde então viram-se pouco. Diego cresceu com drogas e passou a viver tumultuadamente em Bogotá (a selva da cidade).

Clare interroga a mãe sobre o abandono dos filhos. “Há coisas que não se pode sacrificar”, argumenta Valerie. “É preciso romper o ciclo de sacrifícios e culpas. O mais importante na vida de cada um é a vida de cada um”, prossegue. O fato é que Valerie nunca renunciou ao prazer da vida nômade ou a seu conceito de liberdade, mesmo ao preço da responsabilidade familiar. Clare culpa a mãe pelo fracasso de Diego e pela falta de “centro” na sua própria vida. Pergunta o que Val acha disso e ela responde: “Não sei. Não sou psiquiatra. Sou apenas uma mãe”.

Numa cena de espantoso poder metafórico, a gata de Valerie dá à luz vários filhotes e, por serem demasiados, ela leva um deles para ser devorado vivo por uma cobra “linda”.

Clare está grávida quando vai procurar a mãe para filmar. É sua forma de entender o que seja ser mãe. Ou ter um entendimento diferente do que teve em relação a Valerie.

AMAZONA é um filme extremamente bem concebido, com um trabalho de fotografia e trilha sonora de alta qualidade. Lembra às vezes “Grey Gardens” em sua incursão por um cenário físico e humano dos mais rústicos.

Aqui, uma entrevista com a diretora.

 

Um comentário sobre “A coragem de duas documentaristas

  1. Pingback: Meu 2017 e os filmes preferidos | carmattos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s