Retrato do artista quando ausente

ONDE ESTÁ VOCÊ, JOÃO GILBERTO?

A procura frustrada pelo personagem constitui um dos filões já clássicos do documentário. Gente acostumada a se blindar da curiosidade alheia, como Godard, Chris Marker e Margaret Thatcher, foram objetos desse tipo de filme. Já a partir do título, ONDE ESTÁ VOCÊ, JOÃO GILBERTO? se coloca como uma investigação fadada ao fracasso. Mas o filme de Georges Gachot pode também veicular uma falsa frustração, uma vez que partia do princípio da impossibilidade. E, afinal, não chegar a topar com João Gilberto pode ser mais produtivo do que colocá-lo diante da câmera.

O francês Gachot, carioca de coração, tem no currículo longas sobre Maria Bethânia (“Música é Perfume”) e Nana Caymmi (“Rio Sonata”). Para saciar sua curiosidade mitificante pelo “mestre do desaparecimento”, ele se aferra ao livro “Ho-ba-la-lá – À Procura de João Gilberto” (2011), do alemão Marc Fischer, que se suicidou aos 40 anos, pouco antes de lançar o livro. Seguindo os passos de Fischer, destacando belos trechos do seu livro, de posse de suas fotos e gravações de áudio, Gachot cria um espelhamento entre duas obsessões.

No fundo, ONDE ESTÁ VOCÊ poderia se chamar também “Quem Foi Você, Marc Fischer?”, tal é a proeminência do escritor como personagem em relação ao próprio João Gilberto. Gachot chega a “contratar” a mesma assistente de Fischer, Rachel Balassiano, como a “Watson” de sua investigação supostamente sherlockiana. Se funcionou para o livro, essa parceria se mostra inteiramente supérflua para o filme.

Entre cartões postais do Rio filmados com alguma poesia e uma viagem a Diamantina para visitar o banheiro em que o jovem João ensaiava com seu violão, Gachot passeia sua paixão pela Bossa Nova e mantém conversas apenas simpáticas com Miúcha, Roberto Menescal, João Donato, Marcos Valle e outros, numa espécie de aproximação indireta ao gênio elusivo. Procurar pessoas próximas que também nunca o viram, como o seu cozinheiro predileto, é uma forma de consolo para o documentarista desiludido.

Percebe-se um carinho sincero no projeto, mas nada que vá muito além disso. Diversos trechos do filme patinam em lugares-comuns da elegia e da “saudade”. A investigação propriamente dita acaba parecendo um mero dispositivo narrativo, vazio de intenções reais. O fantasma João Gilberto tem sua mitologia reforçada, bem distante da realidade atual do cantor. Não é mistério que sua obra tem sido matéria de disputas judiciais e sua vida civil foi interditada em fins do ano passado pela filha, Bebel Gilberto, em razão de problemas financeiros e de saúde.  Mas isso não cabe na batida do violão, nem no ritmo do barquinho.

2 comentários sobre “Retrato do artista quando ausente

  1. Gostei do filme justamente pela homenagem/ investigação sobre Fischer usando como desculpa o João. Incrível. João ficou secundário. Interessante.

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