Discurso sem fronteiras

SIGILO ETERNO – O FILME QUE SALVOU A HUMANIDADE

Perto do final de SIGILO ETERNO – O FILME QUE SALVOU A HUMANIDADE, o personagem do cineasta Natan (Rollo Roquenrollo) sofre um enfarte e teme pela finalização de seu novo filme. Considerando que Natan é um alterego do diretor Noilton Nunes, 71 anos, fica claro que SIGILO ETERNO aspira ser uma espécie de filme-testamento, pelo qual desfilam trechos de vários trabalhos de Noilton.

Cada cena de arquivo está ficcionalmente inserida na história pregressa do casal outrora formado por Natan e a ex-produtora Heloísa (Aline Deluna), hoje convertida em diplomata e ativista ecologico-feminista. Ela própria seria aquele bebê entregue pela mãe no exílio para ser criado no Brasil no célebre curta Leucemia, dirigido por Noilton em 1978, em plena ditadura. Filmes rodados no Xingu, na Amazônia e na Rio Eco 92 são evocados para compor as memórias do casal.

Natan quer que Heloísa participe do seu filme em produção (o próprio SIGILO ETERNO), mas eles só se encontram virtualmente. Ela está em outra vibe. Prepara-se para participar da Conferência do Clima de 2015 em Paris e reatou com uma antiga amante que milita no Médicos sem Fronteiras. É assim que Noilton procura integrar diversas pautas ambientais e políticas ao seu libelo pela “salvação da Humanidade”.

Noilton é um cineasta-militante. Seu desejo de dizer muitas coisas de forma clara e direta coloca-se acima de quaisquer outras preocupações com forma, dramaturgia ou sutileza. A trama, bastante frágil, sustenta-se precariamente através de monólogos disfarçados de diálogos e falas de natureza discursiva sobre o aquecimento global, os males do capitalismo, o papel dos machos na disseminação da violência e da fome no mundo, além da ditadura de Hollywood sobre as culturas nacionais. As conversas entre Natan e sua assistente, assim como de Heloísa com sua namorada, soam declaratórias e desprovidas de convicção.

Exigências desse tipo podem ser despropositadas para o projeto de Noilton. Como Godard e Luiz Rosemberg Filho, nesse filme ele quer simplesmente falar sobre os temas que afligem sua consciência, para isso usando os personagens e diversas citações como porta-vozes do seu próprio discurso. É cinema bruto para combater um mundo brutalizado.

P.S. Depois de SIGILO ETERNO, Noilton já realizou outro retorno ao passado cinematográfico de sua geração com um documentário ainda inédito sobre a produtora Lente Filmes, do seu Leucemia e de outros clássicos como Ladrões de Cinema e A$suntina das Américas.

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