Quanto mais perto da morte, melhor

A DESTRUIÇÃO DE BERNARDET

Jean-Claude Georges René Bernardet tem 81 anos e um currículo de doenças que quase rivaliza com o de pensador e crítico de cinema. Ele superou a Aids e a meningite, mas sucumbiu à degradação da retina que comprometeu seriamente sua visão. De uns tempos para cá, reduziu sua produção textual e passou a dedicar-se à carreira de ator. Um ator-autor, a par de sua já sólida parceria dramatúrgica com realizadores – sobretudo jovens – de São Paulo. Vários deles passam pela frente ou por trás da câmera de Claudia Priscila e Pedro Marques para interagir com o mestre nesse misto de pajelança e filme-testamento que é A DESTRUIÇÃO DE BERNARDET.

Se há um tema predominante nesse documentário, é a morte. Jean-Claude é visto sangrando pela orelha, extraindo um dente na pia, sendo submetido a exames radiológicos, comentando sobre eutanásia e suicídio assistido, contabilizando os benefícios da proximidade do fim e fazendo um pedido para o seu velório.

O velho intelectual-artista fala para a posteridade, uma posteridade indefinida e sem destinatário, do mesmo jeito como oraliza seus diários num velho gravador de cassete. Não que a posteridade lhe diga muita coisa, mas os atos de gravar, atuar e dançar lhe proporcionam a graça de envelhecer com graça. “Um corpo idoso que encontra uma linguagem”, como ele diz.

A idade, longe de amolecer o crítico mordaz, o tornou ainda mais exigente. Nas diferentes conversas que trava com cineastas e colegas, ele se indispõe, entre outros alvos, contra a lógica capitalista do sistema médico, a inocuidade das palavras genéricas e a dependência exagerada que a arte e a comunicação mantêm com os nexos de narratividade. Da mesma forma como foge das ideias acomodadas, o Bernardet ator procura papéis que o desafiem, física e intelectualmente. Em A DESTRUIÇÃO DE BERNARDET, o exercício de busca para dentro de si mesmo abre espaço para diversas performances, como comer borboletas ou entrevistar a si mesmo com a agudeza de um repórter inquiridor.

Vejo um duplo sentido na ideia de destruição contida no título. Há a destruição do corpo pelas doenças e o envelhecimento. E há a destruição da reputação como algo necessário para se chegar de fato à pessoa. Questiona-se, por exemplo, se a fase atual de ator não seria a decadência do homem de ideias. Lembra-se das queixas de seus alunos da ECA/USP quanto à crueldade do professor. Mas talvez seja exagero dizer que o filme coloca Bernardet na berlinda. Afinal, é ele mesmo quem se interroga e se critica, antes de qualquer outro.

Jean-Claude está no papel de si mesmo, apenas um pouco mais do que em outros filmes recentes. Cada vez mais hábil como ator, sua figura arlequinal e quixotesca, conjugada com um pensamento constantemente irrequieto, faz dele um ícone do questionamento e do inconformismo. Quanto mais perto da morte, melhor.

2 comentários sobre “Quanto mais perto da morte, melhor

  1. Me lembro de entrevistá-lo em 1988 e ele comentava sobre um estudante seu que veio se queixar/ desabafar com ele:
    -“ não sei o que estou fazendo aqui”

    E a resposta dele:

    -“ nem eu sei.”

    Ele se queixava que o estudante chegava muito jovem a universidade, com 18/17 e às vezes até 16 anos. Dizia que ainda não formaram opinião sobre o que queriam da vida. Estava, obviamente , certo.

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