Festival do Rio: THF – Aeroporto Central

Em seu primeiro longa de documentário puro, Karim Aïnouz adota o modelo de observação de Frederick Wiseman. THF: AEROPORTO CENTRAL documenta as rotinas e procedimentos do abrigo de imigrantes instalado no velho aeroporto Tempelhof, em Berlim. Construído em 1923, THF foi utilizado como abrigo e oficina de manutenção de aeronaves durante a II Guerra Mundial, tendo desempenhado papel importante na liberação da Alemanha pelos aliados. Desde 2008, foi convertido num parque de lazer. Mais recentemente, suas instalações internas viraram um posto de triagem de imigrantes.

Karim instalou suas câmeras nos amplos hangares ocupados como moradia de famílias sírias, afegãs, russas e de outras procedências. Durante o período de um ano, acompanhamos conversas, divertimentos, trabalhos, exames médicos, rondas de segurança e a esperança dos refugiados em conseguir asilo ou algum status que lhes permita sair do aeroporto e viver na cidade. A postura discreta do realizador não demonstra intenção de buscar histórias pregressas nem mexer em feridas. A única aproximação mais direta – que quebra o modelo Wiseman – é a eleição de um personagem central, o jovem sírio Ibrahim Al Hussein, que pontua em off as lembranças de sua aldeia natal, da viagem de fuga via Grécia e da expectativa de obter a permanência.

Num contraste intrigante com o cotidiano dos refugiados, o filme mostra também as atividades de lazer dos berlinenses no parque ao redor do aeroporto, assim como o interesse turístico pelos ecos históricos e a arquitetura de Tempelhof. Karim juntou seu olhar apaixonado pelas formas arquitetônicas ao apuro estético do cinegrafista colombiano Juan Sarmiento G., que assinou a fotografia de outro filme brasileiro recente, Alguma Coisa Assim, de Esmir Filho. A imponência algo sinistra do aeroporto é explorada em grandes tomadas de tela panorâmica, onde a figura humana se apequena diante dos saguões e dos antigos aviões que repousam como num museu.

A paisagem atravessa quatro estações, um Natal e um Ano Novo, sem que a situação geral pareça se modificar. Após 15 meses de espera, Ibrahim consegue seu intento, enquanto Tempelhof continuava a cumprir seu papel humanitário, em boa medida oposto àquele para o qual foi concebido. Karim Aïnouz mantém-se fiel à condição de estrangeiro radicado em Berlim. Em sua estada naquele aeroporto, ele estava filmando seus semelhantes.

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