Cabeças cortadas

A PRINCESA DA YAKUZA na Netflix

Poucos duvidam da competência técnica de Vicente Amorim, nem da sua capacidade de reunir equipes altamente qualificadas e recursos de produção e distribuição incomuns para o cinema brasileiro. Tudo isso é bastante visível nesse espetaculoso A Princesa da Yakuza, baseado na novela gráfica Shiro, do brasileiro Daniel Beyruth. A intriga de máfia japonesa desenrolada no bairro paulistano da Liberdade tem ritmo ágil, é visual e sonoramente pulsante, com acabamento de primeira linha. Qualquer beco ou buraco se torna altamente cinemático.

O problema é que todas as qualidades do filme estão na sua superfície lustrosa e retumbante. A colônia japonesa da Liberdade ganha uma aparência neon-realista e ares de feira de variedades hipermoderna. Ali vive a jovem órfã Akemi (interpretada pela cantora MASUMI), que se descobre herdeira de uma ala da yakuza e parte para investigar quem massacrou sua família 20 anos antes em Osaka, Japão. As tradições samurais serão aplicadas à guerra criminal contemporânea.

Uma trama arrevesada a coloca ao lado de um homem misterioso (Jonathan Rhys Meyers) que sofre de amnésia e carrega uma espada mítica… da yakuza, naturalmente. Para alimentar 111 minutos de clichês de ação oriental surgirão, é claro, outros personagens que entrarão na história apenas para sair com membros e cabeças decepados. O filme oferece um desfile nauseante de rostos deformados por ferimentos em refregas editadas com velocidade de games.

A Princesa da Yakuza aprofunda a opção de Vicente Amorim por um cinema despojado de identidade, que procura um espaço a-nacional, por assim dizer. A Liberdade que vemos no filme sugere uma filial da Los Angeles de Blade Runner, onde se fala japonês e inglês, mas pouquíssimo português, e um antiquário pode pagar compras com dólar cash. Como exemplar puro de filme de gênero, poderia ser excitante se tivesse alguma consistência dramática por trás da carnificina.

>> A Princesa da Yakuza está na Netflix.

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