Nossa música

O Festival In-Edit Brasil está rolando presencial e online desde ontem. Entre os muitos documentários musicais apresentados, destaco alguns que já vi e de que gosto muito (clique para ler as resenhas): As Faces do Mao, Belchior – Apenas um Coração Selvagem e Cesária Évora.

Agora quero falar um pouco de Manguebit e Alan, cujos cenários são Recife e Salvador, respectivamente.

O Manguebeat em resgate colorido

Por mais que a cena hip hop e funk tenha evoluído com força entre nós nas duas últimas décadas, ainda não surgiu um movimento de música popular brasileira reconhecível e potente como o Manguebeat. E ainda não tinha surgido um filme que desse conta desse fenômeno com a amplitude e a energia do documentário Manguebit, de Jura Capela.

Jura, integrante do célebre coletivo de cinema Telephone Colorido, foi um dos que registraram shows e momentos importantes do movimento. Vários desses materiais integram a riqueza de arquivos e clipes inseridos no documentário. Lá estão as origens do Manguebeat num centro de cultura afro-brasileira, o Daruê Malungo. O impacto do surgimento da figura de Chico Science, a catalisação de outras bandas nos palcos do Festival Abril pro Rock, a ligação dos “meninos” cosmopolitas com veteranos da música pernambucana tradicional como Lia de Itamaracá e Mestre Salustiano – tudo é recontado com verve audiovisual e testemunhos de gente decisiva como Fred Zero Quatro, DJ Dolores, Siba Veloso, Cannibal, Rogerman, o produtor musical Paulo André e o agitador Roger (criador do bar Soparia, que virou point do movimento). Algumas dessas participações são feitas no lombo de uma motocicleta pelas ruas do Recife; outras aparecem em monitores de TV para insinuar a importância da MTV na propagação da cena.

Siba relembra como passou de roqueiro a rabequeiro. Cannibal sinaliza a valorização da periferia, representada pelo “maldito” Alto José do Pinho. A “quarta pior cidade do mundo” (segundo pesquisa de um instituto estadunidense) era redescoberta como polo de cultura e lugar transbordante de vida. Em contraponto à euforia dominante, Karina Buhr introduz a questão do pequeno protagonismo feminino naquele cenário.

O cinema foi parte orgânica de todo o alvoroço. O longa “Baile Perfumado” sacramentou na tela o espírito do Manguebeat, inclusive incorporando no elenco vários de seus expoentes. Lírio Ferreira e Paulo Caldas comparecem no documentário, junto com imagens de bastidores da filmagem e a cena inesquecível do sobrevoo no canyon do Rio São Francisco.

O curta “Resgate Cultural”, do coletivo Telephone Colorido, ganhou status de manifesto. Nele, o tradicionalista Ariano Suassuna era sequestrado por Forças Rebeldes da vanguarda contemporânea. Vinte anos depois desse curta, MANGUEBIT faz o verdadeiro resgate cultural de uma conjuntura esfuziante. “O manguebeat foi um estado de consciência, uma atitude”, resume Rogerman. Jura Capela nos faz reviver aquela efervescência com uma pegada criativa, mas sem entrar em disputa de inventividade com o seu objeto. Isso é uma grande qualidade.



Alan do Rap, uma história inexemplar

Perdi Alan no Olhar de Cinema e consegui enfim assistir. Trata-se da história inexemplar do baiano Alan do Rap, um catador de papelão e plástico que ficou famoso por “invadir” shows de artistas famosos para contrabandear seu recado da favela. Cito invadir entre aspas porque, ao que parece, as invasões eram combinadas e toleradas para dar uma força ao carinha que cavava seu espaço na cena periférica.

Alan tinha inteligência e energia de sobra para soltar o verbo e incendiar a galera, mas não conseguia fugir do apelo do crime. Os irmãos Daniel e Diego Lisboa o documentaram durante 13 anos do jeito que fosse possível. Na edição, construíram uma linguagem próxima do hip hop, procurando aproveitar as imperfeições, ruídos e interrupções do material gravado. Conseguiram mesmo criar suspense nos momentos finais, quando o desfecho se anuncia.

Havia uma grande intimidade entre Alan e os documentaristas. Diego, por sinal, foi parceiro dele na dupla “Irmão Branco, Irmão Preto”. No período coberto pelo filme, Alan passou quase quatro anos preso por envolvimento em sequestro. Os diretores gravaram mensagens dele na cadeia pedindo solidariedade dos manos do rap. Mano Brown responde com seu papo retíssimo: “Eu ajudo, mas você tá se ajudando? Todo mundo quer tirar cadeia pra virar herói. Tá errado. Não é pecado trabalhar, mano”.

Esse diálogo virtual entre Alan e Mano Brown é um dos pontos altos de um filme que expõe cruamente uma realidade dura das periferias brasileiras. O discurso incessante da desigualdade, da falta de oportunidade e do ódio aos políticos se torna uma armadilha quando leva à alienação e à criminalidade. Outra sequência forte mostra Alan empunhando revólveres e cercado por homens encapuzados e armados enquanto fazia uma peroração contra o sistema. Encarnava, então, o “sobrevivente do inferno”, condenado à dor física e à miséria material. Alan, o filme, é o legado de alguém que não logrou se libertar de sua condição.

>> Confira tudo sobre o In-Edit aqui.

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