A antiestrela de pés descalços

É Tudo Verdade: CESÁRIA ÉVORA

por Paulo Lima

Na cena de abertura da cinebiografia Cesária Évora, produção portuguesa assinada pela diretora Ana Sofia Fonseca, a cantora cabo-verdiana graceja com o câmera que registra sua imagem. “Filmar os meus pés custa um dinheirão”. Cesária Évora colhia os louros de uma carreira que só foi deslanchar aos 50 anos, com o sucesso do seu álbum Mar Azul, depois de ter vivido uma vida de extrema pobreza.

Apesar do seu imenso talento, todas as investidas anteriores de fazê-la conhecida esbarravam no preconceito das gravadoras. Sua voz excepcional, fruto de um dom natural, exibido já a partir da infância, recebia o reconhecimento unânime, mas não sua imagem, completamente fora dos padrões da indústria da beleza e da juventude.

Mesmo assim, graças à obstinação do seu empresário José da Silva, que a descobriu por acaso quando a ouviu cantar em Lisboa, Cesária alcançou o status de diva mundial, levando-a a romper barreiras e a se apresentar em palcos como os do Olympia de Paris e do Hollywood Bowl em Los Angeles, por onde já haviam passado grandes astros da canção, como Ella Fitzgerald e Tony Bennett.

Foi cantando as raízes de Cabo Verde, numa confirmação da máxima de Tolstói, conservando sua liberdade que a levava a se apresentar (e viver) sempre descalça, como uma antiestrela, que Cesária chegou até onde nenhum artista africano havia chegado, tornando seu país conhecido. Tanto sucesso, porém, não mudou seu jeito de ser. Tudo o que ela queria era cantar e ter sua própria casa. A que morava, de tão precária, acabou desabando em cima da família.

O filme mostra uma mulher profundamente ligada a suas raízes, generosa com todos os amigos, desconhecidos e desajustados que formavam uma romaria até sua casa para pedir ajuda – ajuda que Cesária concedia de forma natural. Numa cultura tradicionalmente machista, ela foi uma feminista avant la lettre, que criou os três filhos sozinha e namorava homens mais jovens.

Tanta joie de vivre, entretanto, mascarava um outro lado da artista. O documentário expõe suas crises de depressão, tendo uma delas afetado Cesária durante 10 anos, antes de se tornar famosa. Outras duas crises se sucederiam, já no auge do estrelato, impedindo-a de se apresentar. A neta Janete Évora e o empresário José da Silva falam de bipolaridade. Mesmo assim ela se recusava a ser medicada, afirmando seu ímpeto de independência. E, para completar o rosário de tormentos, havia o alcoolismo. Cesária bebia com a desculpa de que precisava vencer a timidez. O problema, conta José da Silva, era controlar a quantidade de bebida que ela ingeria. Por causa da dependência, os shows da cantora tinham um formato peculiar – eram interrompidos a cada 30 minutos para que ela, mesmo permanecendo no palco, descansasse e bebesse, ocasiões em que a banda lhe dava cobertura, tocando uma sessão instrumental.

É impossível assistir a Cesária Évora sem se sentir tomado por uma dupla emoção: pela alegria e encantamento proporcionados por sua grandeza musical, e pela tristeza de saber que por trás daquela voz havia uma vida tão difícil e sofrida. Mas – o exemplo de Cesária demonstra – só os verdadeiros artistas são capazes de transformar a matéria imperfeita da vida em grande arte.

Paulo Lima

Exibição:
06/04 – 19h: online – É Tudo Verdade Play – Limite de 1500 visionamentos.

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