Festival do Rio 7/10

Vou publicar aqui no blog resenhas sobre alguns filmes do festival e links de textos sobre filmes já resenhados anteriormente. 
Hoje, TRÊS TIGRES TRISTES, A CONFERÊNCIA e SRA. HARRIS VAI A PARIS

O CONTADOR DE CARTAS, de Paul Schrader

CESÁRIA ÉVORA, de Ana Sofia Fonseca – resenha de Paulo Lima

Três Tigres Tristes

O imaginário queer na pandemia

O cinema de Gustavo Vinagre é tanto da sexualidade LGBTQ+ quanto de encontros. Sejam encontros entre o diretor e seus personagens, nos documentários, sejam entre os segundos, na ficção. Encontros que podem gerar ou conversas vadias, ou interações mais intensas na vertical ou na horizontal. Três Tigres Tristes tem um pouco de tudo isso.

É uma das produções mais ambiciosas do autor, tanto em termos de aparato cênico quanto de mobilização de elenco. Talvez seja também o mais desejoso de toque, no sentido de que quer tocar em muitos aspectos de uma certa condição contemporânea. O júri do Teddy Award (dedicado a filmes sobre temas LGBTQ+) deve ter reconhecido isso ao dar-lhe o prêmio no recente Festival de Berlim.

O filme se passa num fim de semana em São Paulo, em torno de um trio queer. A transexual Isabella (Isabella Pereira) se prepara para o Enem e quer ser… Isso mesmo, administradora de empresas. Pedro (Pedro Ribeiro) se exibe para seus fãs online enquanto se recupera da perda do namorado que se jogou pela janela com acordeon e tudo. Eles recebem Jonata (Jonata Vieira), sobrinho mineiro e soropositivo de Pedro, que veio em visita rápida para uma consulta sobre HIV.

É tempo de pandemia, máscaras e álcool aspergido inclusive na boca. Todos esperam a “fase dourada”, quando a vida pode ficar um pouco mais normal. Mas o mal transmitido pelo vírus aparentemente não mata. Provoca algo talvez pior: o esquecimento. Em seus encontros naqueles dois loucos dias, os três tigres tristes (não tão tristes assim) vão cruzar com personagens que vivem lapsos de memória (Gilda Nomacce e Carlos Escher).

Outros encontros serão bem mais acalorados. Visitam Omar (Everaldo Pontes), o único cliente que Pedro ainda atende presencialmente – e não só para fazer sexo. Topam com uma maquiadora especializada em rostos com máscara (Nilcéia Vicente). Pajeiam a cantora Mirta (Cida Moreira), dona de antiquário capaz de se comunicar com objetos inanimados.

Essa fauna e suas fixações vão acabar reunidas num sarau fantasmático-musical que leva o filme a um clímax ferozmente surrealista, como se toda a energia represada pela pandemia explodisse em catarse.

As ideias se atropelam um pouco, mas estão vivas e pulsantes na tela. Existe ali um permanente comentário sardônico sobre os medos de uma vida segura, as indecências do “capetalismo” e o histórico massacre brasileiro dos não normativos. Basta ver que o périplo do trio passa também pelo local do antigo Cemitério dos Aflitos, no bairro da Liberdade, onde eram enterrados indigentes, escravos e condenados à forca. Quanto a isso, vale assistir à curta e contundente fala de Gustavo Vinagre ao receber o prêmio em Berlim.

Mas TTT é também uma afirmação divertida do imaginário queer, a começar por uma sentença lapidar: “A gente nasce pelado, o resto é drag“. Por vezes o filme me lembrou o estilo espalhafatoso de John Waters. Já em sequências como a “boa vida” junto a um canal do Rio Tietê e a performance da mulher-onça, veio-me à memória o deboche de Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

Um ânimo às vezes pueril impulsiona os personagens filme afora, o que é reforçado pelo trava-língua do título e pelas canções originais de Marco Dutra e Caetano Gotardo. Este último, por sinal, faz um rápida aparição caminhando dentro de uma bolha, supremo artefato de segurança sanitária. O homem-bolha é um dos muitos figurantes que realizam atividades indefinidas nas bordas da imagem, provocando um interesse constante pelo quadro inteiro.

Considerando-se que o artifício é um segundo natural para quem vive no modo performativo, pode-se dizer que TTT é uma comédia perfeitamente realista.

A Conferência

A reunião mais macabra da história humana

Em 20 de janeiro de 1942, quatorze dignitários do regime nazista, entre ministros, militares e chefes da SS, se reuniram numa mansão em subúrbio de Berlim para acertar os detalhes de como se livrariam de 11 milhões de judeus de toda a Europa. Era a chamada “solução final” para a pretendida arianização da Grande Alemanha.

A macabra reunião já foi objeto de vários documentários e filmes de reconstituição, sendo o mais famoso A Conferência Wannsee, de Heinz Schirk (1984). Prova de que o assunto continua a assombrar a consciência alemã é esta nova versão, A Conferência (Die Wannseekonferenz), dirigida por Matti Geschonneck. O filme não foge a uma espécie de padrão criado para representar os bastidores do III Reich: homens empertigados falando entre dentes e exprimindo perfeito descaso pela vida de seus desafetos.

Desde a sequência inicial, da arrumação da mesa para a conferência, destaca-se a maneira metódica com que tudo era conduzido – da disposição dos papéis ao extermínio de multidões. Com base nas atas do encontro, taquigrafadas por uma secretária, as falas se sucedem sob a coordenação do chefe da Gestapo, o general Reinhard Heydrich (Philipp Hochmair), interessado em dividir responsabilidades pelo genocídio em curso. Os judeus já haviam perdido valor como reféns, e agora tratava-se de eliminá-los da forma mais prática e “organizacional” possível, mas sem lugar para compaixão ou piedade. Matá-los seria considerado até um gesto humanitário, evitando que morressem de fome nos guetos e que as crianças tivessem dificuldade em sobreviver sem os pais.

O problema não era tanto como matar – sobre isso se referem os cínicos diálogos do ato final -, mas como transportar as vítimas até os matadouros e como descartar os corpos depois. As preocupações de cada um chegavam ao nível do absurdo, como a do representante polonês que insistia para que os “seus judeus” fossem eliminados primeiro para dar lugar aos que chegariam de outros locais. Tratava-se do Holocausto como se fosse o planejamento de um misto de empreendimento industrial com evento militar, no qual tudo deveria passar uma “sensação de ordem”.

Alguns participantes civis questionavam certos pontos, preocupados com um mínimo de “humanidade” no extermínio, como se isso pudesse existir. Um dos ministros propõe a esterilização em lugar da mortandade, mas é acusado de postergar a solução para as gerações seguintes. Afinal, os judeus eram comparados a micróbios, patógenos e parasitas que deviam ser expurgados da terra germânica imediatamente. Guerra e luta racial deveriam ser encaradas como uma coisa só.

Guardando-se as devidas proporções, não há como não associar a Conferência de Wannsee à sinistra reunião de Bolsonaro com seus ministros, quando Weintraub sugeriu botar “os vagabundos do STF” na cadeia e Ricardo Salles recomendou “passar a boiada” na Amazônia enquanto a imprensa se ocupava da Covid-19.

A Conferência é um filme duro, que retrata ipsis litteris um dos momentos mais infames da história humana. Restringe-se à dialogação permanente da reunião, com atores que encarnam em minúcias os matizes de crueldade, hipocrisia. carreirismo e eficiência diabólica do alto comando hitlerista. Afora o registro das falas no salão principal, o filme fornece insights do que se deu nos intervalos e em duas reuniões privadas de alguns membros com o comandante Heydrich.

Matti Geschonneck é um diretor especialista em telefilmes, marca que se percebe também em A Conferência. Mas este é um telefilme de alto calibre, que nos coloca frente a frente com a banalidade do Mal de que falava Hannah Arendt.

Sra. Harris Vai a Paris

A faxineira que abalou a Christian Dior

Já a partir da rima no título original, Mrs. Harris Goes to Paris, esse filme procura ser amável até não mais poder. A senhora Ada Harris (Lesley Manville) implora nossa simpatia com sua tristeza pelo marido morto 13 anos antes na II Guerra, com suas economias de faxineira e apostas para juntar dinheiro a fim de comprar o vestido dos seus sonhos. Não é um vestido qualquer, mas um exemplar exclusivo da Maison Dior, objetivo que a leva a Paris.

Ninguém pretende convencer o espectador de que tudo o que ele vê é possível. À exceção da vilã, a esnobe gerente da Dior encarnada por Isabelle Huppert, Ada atrai para seu socorro uma legião de anjos que inclui moradores de rua, uma topmodel (Alba Baptista, portuguesa filha de pai brasileiro), um gerente financeiro (Lucas Bravo) e até um marquês também viúvo (Lambert Wilson). Os personagens se cruzam casualmente a toda hora como se fossem atraídos por ímãs dramatúrgicos. A gente sempre antevê o que vai acontecer nos dez minutos seguintes, tal é a quadradice dominante.

O anacronismo é assumido como o maior atrativo potencial. Baseado em romance de Paul Gallico e dirigido por Anthony Fabian, Sra. Harris Vai a Paris é um conto de fadas passado nos anos 1950 e filmado como tal. Carrega, assim, ideais conservadores sobre a imobilidade social, no polo oposto ao de Cinderela. Ada Harris não esconde seu background humilde, no qual deverá permanecer. Mas sua generosidade vai dar uma lição à alta costura parisiense, que ela enxerga por um filtro romântico. Afinal, diz o filme, são as mulheres que trabalham duro para os homens brilharem.

Curiosamente, Lesley Manville faz um papel antagônico ao que desempenhou como a irmã que controlava o trabalho do estilista em Trama Fantasma. Ela está ótima, como sempre, mas sua personagem acaba ficando tediosa pelo excesso de açúcar e de afeto que a cerca. O filme pode agradar aos saudosistas incondicionais, especialmente pela longa sequência que reedita um desfile da Dior em 1957. A história assinala o momento em que a Maison teria entrado no ramo do consumo massificado, e a Sra. Harris não estaria alheia a esse movimento.

 

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