Ecos de Abu Ghraib

O CONTADOR DE CARTAS no streaming

O torturador é um dos personagens mais difíceis de se lidar em qualquer dramaturgia. Demonizá-lo é incidir no óbvio. Humanizá-lo é simplesmente nefasto. Encontrar o caminho do meio é um desafio. Paul Schrader tenta isso em O Contador de Cartas (The Card Counter). A meu ver, não foi bem sucedido.

O roteiro ficcional ancora-se na realidade. Em 2004, a divulgação de fotos de soldados estadunidenses torturando prisioneiros na prisão de Abu Ghraib causou comoção mundial. Um desses torturadores, chamados eufemisticamente de “interrogadores militares”, teria sido o personagem criado por Schrader. Depois de passar quase dez anos na prisão, William Tell (Oscar Isaac) é um lobo solitário e metódico que gasta seu tempo em cassinos e desenvolveu uma técnica para apostar pouco, mas ganhar quase sempre.

Quando é procurado por um rapaz endividado e desejoso de vingar a morte do seu pai, outro ex-soldado de Abu Ghraib, William vê ali uma chance de redenção. O vínculo paternal que estabelece com Cirk seria o caminho da expiação para alguém que parece fadado a viver no cárcere, seja como algoz ou como detento. Com essa premissa, Schrader transita entre as mesas de apostas e as modorrentas relações de William com o jovem Cirk (Tye Sheridan) e com La Linda (Tiffany Haddish), uma agente de financiadores de jogo. Durante a maior parte do tempo, assistimos a uma espécie de longuíssimo preâmbulo para os fatos que vão se acotovelar nos 20 minutos finais envolvendo um instrutor de torturas (Willem Dafoe).

Como estudo de personagem, o filme se vale da performance taciturna de Isaac, com seu olhar mortiço e posturas que sugerem uma grande violência refreada. Os monólogos interiores de William evocam os que o mesmo Schrader escreveu para Taxi Driver. Já o preço para não demonizá-lo nem humanizá-lo é mantê-lo numa névoa de “homem misterioso”, algo que não se sustenta muito bem ao longo de quase duas horas.

Os flashbacks de torturas no presídio, filmados com o quadro distorcido, são imagens incômodas, inspiradas no que se viu de verdade em Abu Ghraib. Afora essas cenas e um contraponto idílico bastante deslocado entre William e La Linda no jardim luminoso de um cassino, O Contador de Cartas é marcado pelo estilo másculo e desenfeitado de Schrader. Um cineasta que não tem medo de temas polêmicos, mas nem sempre apresenta as melhores cartas na mesa.

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