Crime e fantasia

NO LUGAR DA OUTRA na Netflix

Num fatídico dia de 1955, a escritora chilena María Carolina Geel (pseudônimo de Georgina Silva Giménez, 1913-1996) levantou-se diante do amante numa mesa do hotel Crillón, em Santiago, e o matou com cinco tiros à queima-roupa. O crime e o julgamento ocuparam os tabloides por meses, repetindo o que já acontecera antes com outra escritora chilena, María Luisa Bombal. Curiosamente, a poeta Gabriela Mistral é quem sairia em defesa de María Carolina pedindo o perdão.

Por mais sensacionalista que seja esse fato, e misteriosas as suas razões, No Lugar da Outra (El Lugar de la Otra) opta por colocá-lo em segundo plano e privilegiar uma personagem inteiramente fictícia. Mercedes (Elisa Zulueta), a assistente do juiz, teria visto na assassina um espelho invertido de sua própria situação. Mercedes vive um casamento opressivo numa casa humilde, com um marido e dois filhos que a tratam como pouco mais que criada. María Carolina, ao contrário, era uma mulher chique e independente, que recusava a vida conjugal.

O romance Las Homicidas, de Alia Trabucco Zerán, imagina a pulsão fetichista que leva Mercedes a se colocar no lugar da escritora enquanto esta se encontra na prisão. Uma sexta mulher, a cineasta Maite Alberdi, adaptou o livro para o cinema como um estudo de personagem obcecada pela fantasia de ser outra pessoa.

Maite é autora de três documentários originalíssimos: Los Niños, sobre um grupo de amigos portadores da Síndrome de Down; A Memória Infinita, com um casal vivendo as angústias do Alzheimer, e o encantador Agente Duplo, os dois últimos indicados ao Oscar. No Lugar da Outra é seu primeiro filme de ficção, no qual ela se afasta radicalmente do estilo documental. Há mesmo um ar de comédia na forma como ela aborda o meio jurídico. O inquérito conduzido pelo juiz, longe de se ater aos autos do processo, foi recriado como esquetes para servir de inspiração às fantasias de Mercedes.

A sequência em que Mercedes visita o presídio e conversa com uma detenta que se diz feliz depois de cometer um crime adiciona um toque de amoralismo à história. Afinal, a esposa infeliz pode estar projetando seu desejo de mudança no crime da outra.

É uma pena que essas sugestões interessantes não sejam exploradas a contento num roteiro claudicante. O filme se ressente de um esquematismo quase caricato na maneira de cotejar a realidade desbotada da escrivã com o mundo glamouroso da escritora – ou pelo menos na forma como Mercedes o imagina. Além disso, por mais fantasiosa que seja a proposta ficcional, soa flagrantemente implausível que Mercedes frequente o apartamento de María Carolina e faça o que ela faz. Mais grave ainda é a incapacidade do filme de nos fazer perceber os sentimentos da moça para além de suas ações um tanto estapafúrdias.

Apesar de reconhecer certa ousadia nessa mudança de rumo, reservo por enquanto minha admiração para a Maite Alberdi documentarista.

>> No Lugar da Outra está na Netflix.  

 

 

Deixe uma resposta