Poesia como questão de moral e de fé

Se você ainda não encontrou uma definição ideal para a poesia, vai ser difícil encontrá-la neste filme sul-coreano que se intitula exatamente Poesia. Para a protagonista Mija (Yun Jeong-hie), uma mulher de 66 anos que se descobre esquecendo as palavras e se inscreve num curso de poesia, esse conceito tem uma acepção naïf – é o que vem de dentro, de ecos da infância e de uma certa propensão para “gostar de flores e dizer coisas estranhas”. Para o diretor Lee Chang Dong, poesia pode ser algo mais intenso e conflagrador, como a disposição de alguém para enfrentar seus dilemas morais.

Poesia conta duas histórias paralelas que se comunicam por vínculos, a meu ver, muito tênues. De um lado, Mija enfrenta o princípio de uma doença mental e tenta sustentar a sanidade lutando com as palavras que começam a lhe escapar. Reter as palavras e organizá-las num poema representaria uma vitória contra o tempo. De outro lado, Mija se confronta com a responsabilidade moral pelo envolvimento do seu neto adolescente (que ela cria sozinha) com um crime sexual que resultou no suicídio da vítima. Além dessas duas linhas principais, outros subplots se acotovelam entre os vários personagens secundários, levando o roteiro (premiado em Cannes) a se estender por desnecessários 139 minutos.

O trunfo para fazer essa longa duração parecer menor é o talento dos atores, especialmente da veterana Yun Jeong-hie, supostamente retirada da aposentadoria pelo diretor para esse papel. A sutil elegância e o retraimento da personagem, que Yun distribui por todo o corpo, nos engaja no labirinto emocional dessa mulher em sua decisão de “ver de verdade” o mundo no momento em que tudo parece desmoronar à sua volta. A identificação entre Mija e a menina suicida lança pontes para além do visível, cabendo ao público preencher as lacunas com a especulação – algo que pertence à mesma raiz etimológica de “espectador”.

A cena da missa na igreja católica pode ser uma chave para a ideia de poesia como uma questão não só de moral, mas de fé. A partir daquele momento, Mija vai se comportar como uma pessoa religiosa: tentando conciliar o senso de compaixão com o dever de justiça. Suas atitudes vão colocá-la em campo oposto ao de Mother, de Bong Joon-ho, grande filme sul-coreano exibido no ano passado. Onde Mother era épico e amoral, Poesia é compenetrado e moralista. A sobrecarga de metáforas envolvendo flores e frutas sugere um flerte com certa noção de “filme poético oriental” para consumo no Ocidente. Nada que o comprometa, mas que apenas soma a suas limitações.       

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