Os três da semana

Numa sucessão vertiginosa, os filmes brasileiros estão chegando e rapidamente saindo de cartaz para voltarem ao circuito da relativa obscuridade. Poucos chegam a vencer o marco das duas semanas em alguma sala, em horários nem sempre convidativos. Isso faz com que sua passagem pelas salas de cinema se torne apenas uma etapa necessária a cumprir, como para legitimar sua existência, em vez de ser o momento culminante de sua trajetória.

 Esta semana, mais três títulos chegam aos tijolinhos dos jornais cariocas. Até quando resistirão? São todos filmes problemáticos, que dependem mais da forma como o espectador se predispõe a eles do que da maneira como eles se dirigem ao espectador.

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 180°, de Eduardo Vaisman, é o mais palatável ao gosto de uma plateia interessada em se divertir e acompanhar uma história intrigante, nos moldes do filme policial. Articula um triângulo amoroso com uma trama de roubo literário num roteiro ambicioso do ponto de vista da construção. Somos levados por uma intrincada alternância de blocos temporais, recolhendo pistas sobre uma certa caderneta de anotações encontrada por um jovem escritor.

 Vi e revi o filme na tentativa de compreender o que me pareciam furos de uma narrativa artificialmente complicada em excesso. As razões da separação entre as personagens de Malu Galli e Eduardo Moscovis, as notícas na TV dois anos depois do lançamento do livro, a localização cronológica do jogo de cartas e o acontecimento do desfecho repentino são alguns pontos que me pareceram bastante confusos para um filme que se quer desenhar geometricamente na nossa percepção. Há também problemas de som que me impediram de entender algumas falas aparentemente cruciais.

 Por sua vez, a sofisticação estética da fotografia e da decupagem nem sempre conta a favor da atmosfera de naturalismo pretendida nas interpretações. Fica mais uma impressão de requinte impostado, como nos filmes de Walter Hugo Khouri, onde até os caseiros podiam parecer modelos de moda masculina. A estrutura de romance policial acaba esvaziada pelo draminha burguês e pelo dispositivo um tanto arbitrário de embaralhar a ordem dos fatos.

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 Desassossego (Filme das Maravilhas) está longe de correr esse tipo de risco, já que escapa de qualquer ordenação prosaica. A conclusão da trilogia Coração no Fogo, de Felipe Bragança e Marina Meliande (iniciada com A Fuga da Mulher Gorila e A Alegria), é um trabalho coletivo, montado a partir de pequenos curtas solicitados por carta a 14 diretores. Felipe e Marina atuaram como curadores-criadores, fornecendo o mote poético (utopia e sonho) e engendrando o produto final.

 A proposta de não segmentar nem identificar as distintas contribuições responde a um desejo de dissolver autorias e chamar atenção para o material cinematográfico puro e simples. Não há tampouco a intenção de criar uma unidade dramatúrgica ou estética, para o bem e para o mal. Isso nos leva a assimilar o filme como sucessão de fragmentos, onde as diferenças saltam à vista e aos ouvidos. Muitas imagens banais são estufadas por uma edição sonora hiperbólica. Outros momentos alcançam uma certa força de poesia, como as cenas do casal na praia ou a fusão das imagens de uma Berlim nevada com um forró brasileirinho (essas, por acaso, sei que são de Karim Aïnouz).

 Em meio ao tom monocórdico habitual e um certo ar depressivo, irrompem sinais apocalípticos que pretendem aludir ao cinema de ação: fogo, explosões, meteorito. O sentido geral, no entanto, me escapa completamente. No tocante à dramaturgia, chama atenção a frequência com que os cineastas recorreram à performance, seja para dar conta da natureza da “encomenda”, seja para atender aos requisitos de brevidade. De qualquer maneira, vale a pena observar como tantos filmes brasileiros, principalmente filmes de invenção,  têm substituído a interpretação linear por situações performáticas, com cenas que se esgotam em si mesmas e um comportamento não interativo do elenco.

 Desassossego foi realizado inicialmente como um projeto de 55 minutos do programa Rumos, do Itaúcultural, e distribuído junto com a carta de Felipe a 2010 pessoas no ano passado. A ideia era gerar outras respostas, quem sabe em filme. O que se vê esta semana na Sessão Vitrine (Cine Joia) é mais uma obra em processo do que um filme acabado. E também mais um exemplo do que venho chamando de criadoria.              

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 Além da Estrada, co-produção com o Uruguai, é mais um caso de uso da fórmula do road movie para compensar a ausência quase total de um projeto. Um jovem argentino e uma moça belga se conhecem no caminho e viajam juntos pelo interior do Uruguai em busca de parentes, amigos e uma possível mudança de vida. Passam por fazendas, pelo jet set de Punta del Leste e por uma comunidade de neo-hippies, colhendo o que podem em termos de prazer e ensinamentos, enquanto também se estudam romanticamente.

 O filme de Charly Braun me bateu como a improvisação no seu pior sentido. Ora a câmera tonta captura clichês de estrada, ora o quadro é preparado minuciosamente para fazer imagens bonitas na hora mágica do sol alaranjado. A montagem é menos que amadora. Tudo é desconexão, laconismo, poses e uma exploração canhestra, mal disfarçada dos dotes físicos da atriz Jill Mulleady. O roteiro (ou o que quer que tenha norteado as filmagens) baseia-se supostamente em memórias do diretor, a crer nas imagens dos créditos finais. O GPS aponta para um mix de cenas improvisadas e outras criadas a partir de conhecimentos estratégicos, como a oca participação de Guilhermina Guinle (irmã do diretor) e Naomi Campbell. Pelos meus padrões, chega a ser absurdo o prêmio de direção que o filme ganhou no Festival do Rio. Critérios, enfim, são mistérios.           

 

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