A política está na mesa

O interior do Cine Pireneus

Ficou com fome quem veio ao Slow Filme, em Pirenópolis, à cata de regabofes como A Festa de Babette ou delicatessen como Ratatouille. Este é um festival de cinema político, aliás como poucos outros no Brasil. A alimentação aqui é uma via de acesso ao funcionamento da sociedade, uma vitrine para a divulgação de práticas revolucionárias no uso da terra e dos recursos alimentares. Uma tribuna dos pequenos contra os grandes. O festival está terminando hoje (domingo).

Acho que foi neste delicioso Cine Pireneus, na sexta passada, que se deu a primeira exibição brasileira do longa francês Soluções Locais para a Desordem Global, um filme que praticamente resume o espírito do festival. É um libelo contra a agroindústria e a exploração dos agricultores pelas multinacionais das sementes compulsórias e dos fertilizantes químicos. Durante três anos, Coline Serreau viajou por quatro continentes coletando depoimentos e histórias de quem reage contra a mercantilização desmesurada da alimentação. Da Ucrânia à Índia, da França ao Brasil, ela entrevistou ativistas, filósofos, economistas e agricultores. O MST brasileiro tem papel de protagonismo, não como a brigada ideológica que a direita brasileira teima em pintá-lo, mas como um exército de gente comum em busca de soluções locais e independentes. A policultura em espiral praticada no Sul, por exemplo, e chamada de “agricultura companheira”. É claro que sobram farpas contra o projeto de etanol do governo Lula numa conversa entre João Pedro Stédile e a veneranda agrônoma Ana Primavesi.

Coline Serreau não perde a oportunidade de dar seu habitual viés feminista ao assunto. O tratamento exaustivo da terra, a corrida pela produtividade em troca da sustentabilidade, a industrialização desenfreada são apontados por vários participantes como uma masculinização da agricultura, que tanto podem reverter quanto mais esse métier seja devolvido às mulheres. Nesse raciocínio de gênero, até o contumaz genocídio de fetos femininos na Índia pode estar ligado a essa supressão das mulheres do cenário do suprimento alimentar no mundo.

O curador do Slow Filme, Sergio Moriconi, fez escolhas corajosas, algumas até radicais. O curta O Jantar, por exemplo, faz um comentário mordaz sobre a atualidade húngara através do som do rádio enquanto um homem sofre um acidente fatal no seu chiqueiro, e o cadáver fica dias por lá, ante a indiferença da família, até ser devorado pelos porcos. No doc iraniano Gato e Rato, acompanhamos a saga dos meninos catadores de restos de pão para a indústria de reciclagem, um trabalho de Sísifo que parece fazer uma ponte entre a era industrial e os tempos medievais. No Senegal, meninos mendigam pão nas ruas para vender no mercado negro de pão dormido (O Pão Nosso de Cada Dia). Na Índia, Comida, Sempre Comida faz um corte transversal da sociedade através dos hábitos alimentares, destacando a luta dos vendedores de rua para fazer face à polícia corrupta que os reprime para dar lugar às cadeias de fast food. Na Polônia, Milkbar enfoca a decadência das cantinas populares ex-comunistas, assoladas pela atual miséria financeira da população. Do Uzbequistão veio um impressionante doc sobre o progressivo encolhimento do Mar de Aral, que transformou um vilarejo de pescadores numa cidade-fantasma em meio à desolação de um deserto salgado.

Ou seja, o Slow Filme não veio pra bolinho. Isso não quer dizer que não haja diversão. O curta de animação francês O Santo Banquete, por exemplo, narra com bandejas de humor negro a história de um ogro que não consegue atingir sua meta de comer criancinhas no dia festivo dedicado a isso. Os curtas catarinenses Histórias da Cerveja em Santa Catarina e Cerveja Falada são fermentados em humor etnográfico colhido na expressão regional e no carisma de alguns personagens.

Esse humor etnográfico, carinhoso e cativante, temperou muitos filmes da programação e transbordou no longa O Mineiro e o Queijo, de Helvécio Ratton, outro que soou como síntese dos conceitos do Slow Filme. Ainda vou me estender mais sobre esse doc quando do lançamento dia 23 em BH e dia 30 no Rio e São Paulo. Esse mergulho profundo numa Minas secular, a dos produtores do queijo artesanal, isolados nas montanhas do Serro e da Canastra, tem tudo para agradar quem gosta de docs e de gastronomia. Ele nos leva aos currais, às pequenas quejeiras e a um processo de fabricação em que as mãos têm importância fundamental. Mas a dimensão política do filme é enfatizada, denunciando as normas sanitárias (alegadamente obsoletas e alienadas da realidade brasileira) que impedem o autêntico queijo Minas de ser vendido fora do estado.

Carmem Moretzsohn e Gioconda Caputo, organizadoras do Slow Filme

Festival pequeno, mas com identidade forte e organizado com simpatia e eficiência pela equipe da Objeto Sim, o Slow Filme fez circular sua mensagem num ambiente propício. Na graciosa Pirenópolis, vivemos uma grande proximidade com os frutos diretos da natureza. Em cada prato ou guloseima, sentimos mais a mão do homem do que as esteiras da indústria. Isso é comida para o pensamento.

2 comentários sobre “A política está na mesa

  1. Caríssimo Carlos Mattos, obrigado pelos comentários e elogios. Foi muito bom ter você entre nós no nosso festival este ano. Sinta-se desde já convidado para as próximas edições. O que a gente pretende é isso mesmo. Os filmes nos fazendo refletir sobre os nossos hábitos alimentares, sobre nosso modelo de vida. Os filmes como alimento da alma. A consciência posta na mesa. Abração,

    Sérgio Moriconi

  2. O Festival foi uma oportunidade impar para se fazer uma reflexão sobre os caminhos (e descaminhos) que podem ser trilhados pelas sociedades. Vê-se desespero e alento. Morte e Vida. E não deixa duvida de que a mesa eh uma questão política. Parabéns aos organizadores pela coragem.

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