Tags

, ,

Nesse terceiro tomo de seus “Apontamentos para uma autocinebiografia (em regresso)”, Carlos Adriano procura o ponto de fervura em que cinema e poesia se transformam um no outro. Como guias nesse território de fronteira, o curta tem Pasolini e Cocteau, poetas que falaram e filmaram com frequência semelhante. Mas a rede tecida pelo cineasta vai bem além, envolvendo Mallarmé, Buñuel, Lorca, Straub, Pound, Godard, Hölderlin, Brossa, Ungaretti… Uma construção em abismo, na qual versos, planos de filmes e considerações dos poetas se cruzam por sabe-se lá que caprichos.

“Caminhante, não há caminho. Faz-se caminho ao andar”, diz a canção sobre os versos de Antonio Machado. O convite vale para o espectador deixar-se levar pela deambulação erudita de Carlos Adriano. O que à primeira vista parece uma coletânea de definições pelas vozes de poetas (reais e encenados por atores) logo se afigura como um estímulo à decifração. Ou simplesmente um chamado ao prazer de coletar pílulas de pensamento original e ressonâncias que reverberam dentro do próprio filme. O autor lança mão de operações poéticas habituais em seus filmes, como as sobreposições, reaparições e intervenções em imagens de arquivo. Faz ecoar também outros filmes e personagens de sua obra, como os fotogramas pioneiros de Cunha Salles, o mutoscópio de Santos Dumont e a efígie querida do ex-companheiro Bernardo Vorobow.

À pergunta do título só cabe responder: quanto mais pobreza temos ao redor, mais precisamos dos poetas, seja qual for a matéria de sua poesia. Nesse sentido, o curta de Adriano é uma injeção na veia.