Festival do Rio: Maya Angelou, e Ainda Resisto

por Paulo Lima

No panteão das personalidades icônicas que lutaram pelos direitos civis nos Estados Unidos, como Martin Luther King e Malcolm X, o nome de Maya Angelou ocupa um lugar de destaque. Sua história tem os contornos de um grande épico americano que atravessa todo o século 20 e termina com sua morte em 2014, aos 86 anos. E, como num épico, ela parece ter vivido muitas vidas numa só. É inacreditável que sua história está sendo mostrada somente agora pela primeira vez no cinema.  O longa-metragem MAYA ANGELOU, E AINDA RESISTO, dos diretores Bob Hercules e Rita Coburn Whack, incumbiu-se da empreitada.

Amigos de Maya, os diretores produziram um típico documentário americano que mostra o personagem “do berço ao túmulo”, baseado em fartas imagens de arquivo e depoimentos estratégicos. Desta estrutura formal, no entanto, emerge uma mulher cuja força soa quase inverossímil. Maya Angelou foi uma mulher negra que sofreu na pele todas as vicissitudes do racismo americano. Ela nasceu em Saint Louis, Missouri, em 1928. Devido a dificuldades dos pais, foi entregue com o irmão a uma avó no Arkansas. Esta foi a primeira mudança entre muitas que viriam. A consciência de sua situação a assaltou desde cedo. A própria Maya conta seu drama com imagens registradas ao longo de várias fases de sua vida. Algum tempo depois os dois irmãos foram levados pelo pai para reencontrar a mãe em Saint Louis, onde vivia como dançarina, já separada do marido. A cena de licenciosidade que a cidade respirava, marcada pelas contravenções artísticas e comportamentais, foram o primeiro despertar de Maya para aquilo que ela viria a se transformar no futuro: poeta, escritora, atriz, dançarina e ativista. Em Saint Louis, Maya é estuprada pelo namorado da mãe. O episódio a faz mergulhar num longo período de mutismo psicológico, só recuperado com a descoberta da poesia.

Maya tornou-se mãe aos 16 anos. Numa nova etapa de sua vida, a vemos trabalhando como dançarina e stripper em São Francisco, em plenos anos 1950. Como numa dessas torções do destino, Maya participa de uma seleção para o musical Porgy and Bess e é aceita. Este é o ponto de virada que lhe abrirá outras portas e a conduzirá a Nova York, em plena efervescência dos anos 1960, onde ela por fim desabrochará como poeta, escritora, atriz e ativista política, tornando-se amiga de influentes figuras do meio literário, como o romancista negro James Baldwin.

A trajetória de Maya Angelou ainda a transportaria para uma experiência africana, ao lado do filho, graças a um relacionamento amoroso. As etapas vividas no Cairo e em Gana representam um novo capitulo de perdas e conquistas de uma vida que ainda se prolongaria por longos anos, com sua volta aos Estados Unidos. Como mostra o filme de Bob Hercules e Rita Coburn Whack, Maya Angelou representa um pilar vigoroso na história da cultura negra americana, tendo influenciado sucessivas gerações. A cena de abertura do filme, em que ela aparece participando como convidada especial da cerimônia de posse do ex-presidente Bill Clinton, é um reconhecimento da dimensão que alcançou. Seu poema “And still I rise”, de onde o título do filme foi retirado, é uma espécie de hino da resistência negra, ao lado do romance I know why the caged bird sings (“Eu sei porque o pássaro na gaiola canta”), que lhe trouxe a glória literária. Maya Angelou foi um pássaro que conseguiu escapar da prisão, e seu canto está aí para a posteridade.

Paulo Lima

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