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A República dos Meninos, de Flora Gomes

Nos países da África lusófona, o cinema começou com a independência, em meados dos anos 1970. Guiné-Bissau (1974), Moçambique e Angola (1975) desde cedo investiram o que puderam no cinema como fermento de identidade nacional e ferramenta para a constituição de uma sociedade socialista. Em Moçambique, por exemplo, o primeiro ato cultural do governo da Frelimo foi a criação do Instituto Nacional de Cinema.

Esse momento efervescente de ideias e projetos, assim como as realizações e desilusões que se seguiram ao longo dos anos, está representado na mostra “África(s). Cinema e Revolução”, que começa nesta quinta (10/11) no Cine Caixa Belas Artes, em São Paulo. A programação compreende 39 filmes, entre curtas e longas-metragens. Algumas sessões serão acompanhadas de debates com cineastas e especialistas no assunto. Entre os convidados estão os cineastas Ruy Guerra, o guineense Flora Gomes, o moçambicano Camilo de Sousa e a portuguesa Raquel Schefer.

Haverá filmes antigos e recentes, muitos dos quais inéditos ou pouco conhecidos no Brasil. O épico documental 25, realizado em Moçambique/1977 por Zé Celso Martinez Correa e Celso Luccas, por exemplo, só foi exibido por aqui no contexto de uma mostra, há quase 30 anos. Baseados em obras do escritor angolano José Luandino Vieira, os filmes Monangambee (1968) e Sambizanga (1972), de Sarah Maldoror, jamais chegaram ao Brasil, assim como Na Cidade Vazia (2004), de Maria João Ganga, o segundo filme feito em Angola depois da independência e o primeiro dirigido por uma mulher no país. A curadora Lúcia Ramos Monteiro incluiu também os premiados Po di Sangui (1996) e A República dos Meninos (2012), de Flora Gomes. Veja a programação completa aqui.

A brigada brasileira

Muitos estrangeiros contribuíram nos primeiros passos da cinematografia moçambicana. Godard, Jean Rouch e Santiago Álvarez foram alguns, sendo que os dois últimos têm filmes na mostra. Não poderia haver melhor oportunidade para conhecer e mensurar a participação de diversos brasileiros nesse esforço internacionalista a partir do convite feito pelo governo de Samora Machel ao compatriota Ruy Guerra, já então consagrado no Cinema Novo brasileiro. No rastro de Ruy, seguiram para Maputo diversos cineastas e técnicos jovens, que fizeram filmes e ajudaram a formar quadros para o nascente cinema de Moçambique.

O próprio Ruy terá três curtas e um longa dessa fase na mostra. O longa Mueda, Memória e Massacre (1979) é o registro de uma reconstituição popular feita anualmente do massacre de cerca de 600 homens no vilarejo de Mueda, em 1960, após reclamarem a independência do país. Muito anterior à luta efetiva pela emancipação, o episódio de Mueda virou inspiração histórica. Ruy filmou o misto de festa folclórica e evento cívico com rigor, economia de meios e objetividade exemplares. Trata-se de documentário sobre um ato de representação.

De Ruy Guerra se verão ainda um média e três curtas. O média Os Comprometidos – Acta 5 (1985) é um documento impressionante. Diante de uma grande plateia, Samora Machel lidera um tribunal revolucionário para interrogar um colaborador do regime colonialista. Ele acua, acusa e ironiza o “comprometido”, entre pausas dramáticas e aplausos da assistência. samoraCom grande pompa teatral, puxa um canto de independência. Em dado momento, as bordas da tela revelam uma contradição: o presidente revolucionário é servido por garçom coberto de roupa e luvas brancas (foto à esquerda). O curta poderia ser exibido junto com O Especialista, o clássico (e controverso) doc-registro do julgamento do nazista Adolph Eichmann. Na ficha técnica constam os nomes dos produtores Xuxo Lara e Mário Borgneth, e da montadora Marta Siqueira, outros integrantes da brigada brasileira na Moçambique independente.

Em Um Povo Nunca Morre (1980), Ruy documenta as pompas fúnebres de heróis da independência mortos no exterior, entre eles o ex-presidente Eduardo Mondlane. Entre os cinegrafistas está o brasileiro Edgar Moura, presente nos créditos de vários filmes moçambicanos dessa época. O texto da narração – a maioria desses documentários se estrutura em torno de um texto bastante assertivo – é de Licínio Azevedo, brasileiro emigrado definitivamente para Moçambique. Licínio criou a produtora Ébano e tornou-se o mais prolífico e criativo cineasta do país, dono de uma maneira muito própria de mesclar documentário e ficção. Dele serão exibidos A Colheita do Diabo (1988) e Hóspedes da Noite (2007).

Outro curta assinado por Ruy Guerra é Operação Búfalo (1980), título possivelmente inspirado em Opération Béton, primeiro curta de Godard. O filme acompanha o processo de exploração dos búfalos, de cenas cruéis de caçadas a partir de jipes e helicópteros até o processamento das carnes e a exposição de subprodutos nas vitrines de lojas. O abate dos animais é visto pelo ângulo científico e das necessidades do desenvolvimento socialista. Não deixa de ser chocante.

Ruy Guerra e Licínio Azevedo aparecem no documentário que conta toda essa história do nascente cinema moçambicano: Kuxa Kanema – O Nascimento do Cinema (2003), de Margarida Cardoso. Rodado numa época de desencanto, em que o Instituto Nacional de Cinema estava em ruínas depois de um incêndio e a televisão já ocupara o lugar do cinema como veículo de construção nacional, Kuxa Kanema recorda a época áurea dos anos 1970 e 80. Mas também denuncia a inflexão conservadora da revolução nas décadas seguintes e a conversão dos filmes em meros canais de propaganda e mensagens oficiais pautadas pela rigidez ideológica. Já nos 70, Godard não teve aceito seu projeto de fazer uma contratelevisão no país. Parecia experimental demais. Com Godard chegou em Maputo um certo jovem chamado Guel Arraes.

Murilo Salles (centro, de camisa branca) em filmagem na “machamba” 

A dura resistência contra os ataques da Rodésia (atual Zimbábue) e da África do Sul da época do apartheid, mais a fome e a desilusão ajudaram a minar o elã dos primeiros tempos. As agressões sofridas estão no centro do longa Estas são as Armas, dirigido por Murilo Salles, incluído na mostra. Só exibido uma vez no Brasil, em recente mostra de Murilo no Rio, Estas são as Armas é outro documento de enorme importância. Retrabalha um vasto material de arquivo da Frelimo, que inclui combates e muitas imagens do país recém-independente. Murilo assim relembra esse filme: “Tive que sair do Brasil para realizar o rito de passagem da fotografia para a direção. Isso aconteceu com um filme militante. O presidente Samora Machel insistia ser necessário que se fizesse um filme para explicar aos moçambicanos o que era imperialismo. Assumi a tarefa. Tinha à minha disposição um precioso material de registro da luta armada da Frelimo, além dos arquivos de centenas de cinejornais portugueses da época colonialista. O filme foi montado para emocionar um povo que se esforçava para entender o que era uma revolução marxista-leninista, mas estava muito orgulhoso de poder construir sua própria nação”.

Murilo era chamado por Samora Machel de “Camarada Brasileiro”. Como outros conterrâneos, ele dirigiu filmes e ministrou cursos e oficinas a jovens moçambicanos que entravam no cinema sem qualquer experiência prévia. Muitos tinham no currículo somente a euforia da recém-conquistada independência.