Amor à cor da pele

SE A RUA BEALE FALASSE

“Todo preto nascido na América nasceu em Beale Street”, afirma James Baldwin num trecho de Se a Rua Beale Falasse, destacado como epígrafe do filme de Barry Jenkins, diretor do oscarizado Moonlight. Essa belíssima adaptação do livro de 1974 carrega a mesma intenção de falar alegoricamente da situação dos afrodescendentes nos EUA. Isso transparece na inserção de fotos documentais de opressão policial em dois momentos do filme. A Rua Beale, portanto, é só um indicativo de abrangência.

De resto, é através de dois núcleos familiares que Baldwin e Jenkins descrevem a diversidade de visões dentro de uma mesma comunidade. Tish (Kiki Layne, estreando no cinema com talento e graça supremos) e Fonny (Stephan James), amigos desde a tenra infância, descobriram o amor e criaram uma redoma de ternura para resistir ao mundo exterior. A maneira como Jenkins encena esse relacionamento, com a ajuda da música de Nicholas Britell, é das coisas mais pungentes que vi ultimamente no cinema. Douglas Sirk e o Wong Kar-Wai de Amor à Flor da Pele inspiraram o cineasta.

Desde o início, porém, esse idílio ao som de cordas elegíacas e slow jazz é cortado por uma realidade que o sucedeu. Antes mesmo de se casarem, por obra de um policial racista, Fonny foi preso sob a falsa acusação de ter estuprado uma mulher portorriquenha. Logo em seguida, Tish descobriu-se grávida e, com o apoio de seus pais e irmãs, lançou-se à luta para libertar o amado.

Levanto alguns pontos curiosos nessa história. James Baldwin foi pregador evangélico na adolescência. Depois renegou a igreja, acusando-a de ser mero teatro. Essa decepção parece tardiamente expressa no retrato da mãe de Fonny, representante de negros de maior soberba e fanática religiosa que prefere ver o neto morto a ver o filho preso. Baldwin não disfarçou um certo maniqueísmo no contraste entre as duas mães, assim como na caracterização do policial white trash.

Particularmente desconcertante é ver como o romance insinua a hipótese do furto como sendo uma solução sempre presente no horizonte dos pretos e pobres para superar suas privações. Ou ainda a fala de Tish, narradora do filme, a respeito de um amigo de Fonny: “O tempo não ajudou Daniel. Ele continuava grande, preto e barulhento”. A percepção de racismo introjetado pode ser uma leve mácula no perfil angelical da moça.

Quando se emprega numa loja de perfumes (“eles achavam progressista empregar algum negro”), Tish experimenta na pele, literalmente, diversas acepções de racismo, vindo tanto de brancos como de negros. Em contrapartida, nos dias que precederam a prisão, o casal encontrava sinais de uma rede de solidariedade que ligava os “diferentes” (pretos, latinos, judeus), talvez tão idealizada quanto a sua própria história de amor.

Sim, porque antes de mais nada SE A RUA BEALE FALASSE é uma história de amor contada com um misto de tristeza e glamour, brandura e sensualidade. Chegando às vezes próximo do preciosismo formal, Barry Jenkins nos enleva com sua câmera abraçando Tish e Fonny, colocando o espectador no coração fresco de um romance em pleno viço, mas fadado à frustração. O filme concorre aos Oscars de roteiro adaptado, trilha sonora e atriz coadjuvante (Regina King, que faz a mãe de Tish). A meu ver, é melhor do que Moonlight.

Depois que acaba na tela, a história continua no romance de Baldwin. Se você não quiser saber, não leia o próximo parágrafo antes de ir ao cinema.

No livro, Fonny é libertado sob fiança quando o filho já é um menino crescido. Antes disso, seu pai cometeu suicídio após ser flagrado roubando os produtos com que juntava dinheiro para a defesa do filho. Nos dois casos, são pais negros impedidos de cuidar de seus filhos depois de uma intervenção da polícia. James Baldwin fincava aí sua bandeira da consciência negra numa América injusta.

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Agora conheçam essa curiosidade histórica: a primeira manifestação de afeto entre negros no cinema

2 comentários sobre “Amor à cor da pele

  1. Tô LOUCA pra ver esse filme! Queria que lançasse logo no Brasil.

    Barry Jenkins é genial, e é muito importante ver as histórias que ele conta (a forma como ele conta) cada vez mais divulgadas nas telas. 🙂

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