As adversidades de Boy Johan

CANÁRIO no streaming

Johan Niemand (Schalk Bezuidenhout) gostaria de ser como Boy George: cantar, desenhar roupas e adotar o que hoje chamamos de não binarismo. Mas Johan vivia numa cidade do interior da África do Sul em 1984, cenário difícil para realizar esse sonho. Além do mais, Johan era cristão, tímido e meio caipira – o que a esfuziante sequência musical de abertura de Canário (Kanarie) não deixa entrever. Para agravar a situação, é convocado para servir o Exército. Consegue uma vaga no grupo de coral e concerto do Corpo de Defesa (os “Canários”), onde acha que vai se safar do pior.

Mas não.

Os integrantes do coral são oprimidos pelo trinômio militarismo/machismo/fundamentalismo religioso. Para justificar os ataques do Exército sul-africano contra os “terroristas” e “comunistas” que lutavam pela independência da Namíbia na área de fronteira, o pastor-comandante proclama que “Deus declarou guerra ao diabo”. No meio de tanto conflito, e mortificando–se com a atração que sente por um colega, Johan tenta entender e aceitar o que é. Um armário extremamente difícil de abrir.

Canário, dirigido por Christiaan Olwagen, se beneficia bastante da demanda pelo filme queer, mas não deixa de ter seus méritos para além disso. Apesar de se estender um pouco no meio do caminho, o roteiro, escrito a quatro mãos pelo diretor e pelo autor da trilha sonora, Charl-Johan Lingenfelder, é suficientemente imaginativo para angariar simpatia. Ao mesmo tempo que carrega na caricatura dos oficiais tóxicos e do conservadorismo branco sul-africano, também cria áreas de sutileza e heterogeneidade muito interessantes. Numa das melhores cenas, durante uma turnê do coral, uma mulher burguesa ensina Johan a não fazer como ela e, ao contrário, chutar a barraca das convenções.

O filme cresce também nos momentos em que o naturalismo dominante cede às derivas da imaginação de Johan, especialmente no que diz respeito a seu ídolos pop, e também nas cenas de apresentação do grupo, quando é difícil acreditar que os atores estão apenas fazendo playback. Um exemplo de extrema delicadeza da direção é a sequência da primeira aproximação entre Johan e Wolfgang (Hannes Otto) em torno de um piano.

A mim pareceu que a intenção de fazer um feel good movie minimizou o contexto do apartheid e da guerra colonialista empreendida pela África do Sul naquele período. Num universo inteiramente de brancos, a única referência à segregação racial são uns poucos serviçais negros que aparecem à margem da imagem. Quanto à guerra, constam apenas o protesto solitário de uma mulher consciente e umas poucas cenas irrealistas no front. Aparentemente, os temas políticos e sociais não podiam se sobrepor aos dilemas de Johan com sua identidade sexual.

Canário está nas plataformas iTunes, Google Play, YouTube Play, Now, Vivo Play e AppleTV     

 

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