Elogio do movimento

MOTO CONTÍNUO no streaming / com texto do diretor ao final da resenha

Filmar a dança requer uma sensibilidade toda especial se não se quiser apenas registrar os movimentos como alguém que assiste da plateia. É preciso saber conjugar o olho da câmera com o corpo dos bailarinos e bailarinas. Algo ainda mais bonito acontece quando os enquadramentos e a montagem potencializam a beleza dos deslocamentos, sua leveza ou seu impacto.

É isso o que vamos encontrar em Moto Contínuo, documentário que propõe uma imersão no trabalho da São Paulo Companhia de Dança. A rigor, não há grandes novidades no que tange à informação. Vemos fragmentos de ensaios e bastidores enquanto ouvimos retalhos de impressões da diretora artística Inês Bogéa, de membros do corpo de dança, do produtor, da pianista, da camareira, etc. Eles e elas falam do que domina o universo da dança clássica e contemporânea: ego, bullying, trabalho árduo, condições físicas, dores, orgulho, alegrias. Ouvimos um pouco sobre formação, família, viagens e por aí afora.

O que realmente destaca Moto Contínuo no panorama do documentário sobre arte no Brasil é a qualidade de sua captação, a inteligência da montagem e a contribuição da trilha musical do duo O Grivo e Roberto Freitas. O filme reúne trechos de ensaios de diversas obras, sendo que alguns parecem executados especialmente para o documentário. Como não há performances inteiras, e muitas vezes são somente exercícios solitários de um ou outro bailarino, a ambientação sonora criada pela trilha absorve os movimentos em outra dimensão, mais cinematográfica que teatral. O resultado é belíssimo, quando não mesmo arrebatador, pois a criatividade do registro se soma à excelência das atuações.

O diretor Marco Del Fiol – que atua também na fotografia e na edição – é um caprichoso documentarista de arte. Seus filmes sobre Marina Abramović e sobre a família Cravo são obras de exceção nesse setor (clique nos links para ler minhas respectivas resenhas). Ao se voltar para a dança, ele encontra ângulos invulgares e opera com precisão impecável na filmagem. O ralentamento das imagens realça tanto a fisicalidade dos corpos quanto a mística que anima os artistas no palco. A luz, elemento essencial na composição dos espetáculos, ganha também um protagonismo que raramente se vê em filmes do gênero.

A meu ver, Moto Contínuo passa, desde já, a figurar no topo do cinema brasileiro dedicado à dança, juntamente com o curta Arquitetura do Corpo, de Marcos Pimentel, e o politizado Ressaca, de Vincent Rimbaux e Patrizia Landi.

>> Moto Contínuo está nas plataformas CurtaOn e ClaroTV+

“Eu precisava acreditar na beleza”

por Marco Del Fiol 

Dança pra mim é algo sublime. Do máximo da fisicalidade se chega em algo gasoso, etéreo. Do palco, esse algo emanado no exercício de presença total dos bailarinos se espalha e penetra em silêncio no corpo da plateia. Nesse processo de sublimação da matéria a palavra é dispensável. Quis fazer um filme que equilibrasse o sagrado da dança com o profano da edição, que tivesse a liberdade de ser ele próprio uma coreografia. Uma história conecta com a outra, uma imagem contradiz a outra, um som trocado cria um novo sentido. Agradeço muito à Inês Bogéa, que abriu as portas da São Paulo Companhia de Dança para que nossa equipe mínima de gravação – Gustavo Almeida, Rachel Vianna e eu – pudesse submergir nesse grande corpo de baile. Entrevistamos sem câmeras, só com áudio, desde a faxineira até a diretora da companhia, procurando o que é singular em cada membro desse organismo.

Nada disso seria possível sem Minom Pinho e Carolina Trevisan, que sempre embarcaram na minha quixotesca megalomania de garagem; Gustavo Almeida e Rachel Vianna, que mesmo sem entender onde eu estava indo entraram na dança e criaram novos passos na fotografia e no roteiro; Marco Korodi, meu parceiro de corte que me completa na contradição e causa o atrito que incendeia a edição.

Tenho que agradecer também a Nelsinho e Canário do O Grivo e Roberto Freitas por cederem suas músicas. Pra mim é o som da terra transformando carvão em cristal, dos ossos crescendo ao longo dos anos, da súbita contração dos músculos, das coisas que se transmutam e transformam debaixo das epidermes. Carlos Bêla com sua embalagem elegante de letreiros e cartaz. E mais uma vez contamos com a mixagem da Input nas mãos, olhos e ouvidos dos mestres Rafael Benvenuti e Mario di Poi, esses sabem que técnica e poética nunca estão desassociadas. Além dos parceiros de sempre contamos com a chegada da Clandestino na cor: João Paulo Geraldo, você arrasou! E de Daniel Turini na edição de som. Finalmente, obrigado à Bibiana e ao Canal Curta pelo convite.

Este é o nosso filme mais bonito. Nesse tempo sombrio de pandemia, ignorância e luto, eu precisava acreditar na beleza. Não só por mim, mas pelo ato de fazer e viver de arte. Essa companhia mostra como o investimento continuado em cultura dá resultado. Sei que arte gera emprego, movimenta a economia, é soft power e essas coisas todas, mas acima de tudo arte serve à vida, ela expande nossa experiência de estarmos aqui, do que é possível e do que é mistério. Dediquei esse filme pra Jasmin Pinho, que foi minha parceira em tantas coisas bonitas e que sabia como ninguém o esforço que é necessário para parecer leve.

Marco Del Fiol

2 comentários sobre “Elogio do movimento

  1. A leveza, riqueza de detalhes e minúcias comportamentais de seus protagonistas, dentro e fora dos palcos, descritas em seu texto, sobre esse documentário, Carlinhos, também revela seu olhar profundo e de grande sensibilidade para nos ampliar, com lupa especial esse universo de desafio, magia e sonho, que passa há anos-luz da percepção do vulgo. Com seu texto ágil e inteligente – ele mesmo também uma espécie de dança -, v. só faz reconhecer, reverenciar e enobrecer os grandes méritos dos realizadores que vivenciaram e registraram momentos sublimes dessa essa arte difícil e ainda tão pouco cultivada, entre nós, filhos de um país inculto, onde a cultura ainda é tratada a chibatadas e ponta-pés, pelo Governo, que prioriza grandes eventos em arenas, com muito gado – dentro e fora delas -, além de alardear a pontaria de brutamontes em estandes de tiros, sem falar dos que parecem atingir múltiplos orgasmos. em passeios idiotas de motocicleta, deslocando-se do nada para lugar nenhum. Cruz credo!

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