Longe e perto da favela

O pronome “mim” no título desse filme talvez seja mais importante que o substantivo “samba”. E não apenas porque Geórgia Guerra-Peixe usa a primeira pessoa na introdução, aludindo a sua condição de filha de um diretor cultural da Mangueira. Geórgia é alguém que se assume como forasteira, mas afetivamente ligada ao mundo do samba e curiosa em relação às histórias que existem por trás da famosa quadra. O “mim” é importante sobretudo porque Geórgia não sai de si para fornecer um retrato supostamente “autóctone” da mais poética favela carioca. A Mangueira que vemos em O Samba que Mora em Mim é filtrada pela sensibilidade e pela estética de alguém de fora, que vem de uma formação paulistana e do mundo da publicidade.

A boa notícia é que isso, longe de ser um demérito para o filme, é fonte de sua cativante personalidade. Não vemos aqui o apetite de realidade bruta que muitas vezes apresenta essas comunidades como núcleos do exótico e do pitoresco. Não há aquela ansiedade típica dos documentários que querem colar seu estilo a um suposto ritmo da favela, seja ele o samba, o funk ou o hip hop. Geórgia constrói um retrato verdadeiramente cinematográfico da Mangueira, em que as imagens e as palavras querem ser o tempo todo música. Uma musicalidade de cinema.

O júri da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que deu ao filme o seu prêmio especial no ano passado, talvez tenha se sentido como eu: passeando tranquilamente pelo morro, colhendo impressões selecionadas por um olhar carinhoso e mais atento às singularidades que aos clichês. A fotografia cuidadosa nos detalhes e a edição sem compromissos com o naturalismo criam um retrato original e bastante pessoal. Além de assumidamente artístico.

E no entanto a Mangueira está lá, com personagens irresistíveis como Cosminho, o homem que “mora no sapato”, ou a “vovó” que detesta carnaval por causa da “zoada”. Muitos são os flashes deliciosos que capturam gestos, afazeres e trocas cotidianas, assim como a verve única de gente que não se deixa vencer pelos “degraus de obstacularidade”. Humor e ternura convivem graciosamente enquanto a vida mangueirense se desdobra diante de nossos olhos. Assim se faz um doc que, enfim, se nivela ao perfil da Estação Primeira traçado por Thereza Jessouroun no também aprazível Samba (2001).           

A preferência por driblar o óbvio fica mais clara do que nunca na sequência final, quando Geórgia Guerra-Peixe troca a apoteose do desfile das escolas pelo ângulo mais lírico e menos espetacular de quem ficou na favela diante da TV. Esse distanciamento, que paradoxalmente aproxima mais, é a chave de tudo em O Samba que Mora em Mim.       

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