Memórias de imigrantes

O Paraná é um dos maiores caldeirões de descendentes de imigrantes do Brasil. Se isso se reflete na paisagem cultural da cidade, acaba reverberando também no seu novo festival, o Olhar de Cinema. Entre os vários filmes sobre o tema da imigração programados, pude ver dois ontem (quinta).

Iván Boiko e Guto Pasko

Um deles é produto local. O diretor Guto Pasko, descendente de ucranianos, estreou seu segundo longa, Iván – De Volta ao Passado. No anterior, Made in Ucrania, ele apresentava a colônia ucraniana do Paraná. No novo filme, ele leva um dos protagonistas do primeiro, de 92 anos, de volta a sua aldeia na Ucrânia para reencontrar parentes, amigos e vizinhos. Iván Boiko, que introduziu no Brasil a fabricação de banduras (instrumentos de cordas típico da Ucrânia), tem uma biografia dramática que vamos conhecendo ao longo da viagem.

Ainda menino, viu seu país ser invadido pela Polônia. Na juventude, militou numa organização nacionalista e foi preso pela KGB soviética. Aos 20 anos, em plena ocupação do país pelos nazistas, ofereceu-se para ser expatriado para a Alemanha no lugar da irmã mais velha. Em 1948, finalmente, coube-lhe o destino do Brasil, de onde nunca mais tinha saído até esta viagem para o filme.

Guto Pasko constrói um relato fortemente baseado na emoção. Desde o momento em que comunica a viagem ao velho Iván diante da câmera até o reencontro climático com a única irmã sobrevivente, 68 anos depois, testemunhamos uma sucessão de surpresas, abraços, lágrimas e recordações comoventes. Trata-se de um reencontro não só com pessoas, mas sobretudo com uma consciência de nação, ameaçada pela diáspora e as sucessivas ocupações, e plenamente reconquistada somente depois do fim da URSS. O sentimento nacionalista, mesclado à fé religiosa e ao pathos das relações pessoais, fez chorar a plateia da sessão, composta em boa parte por pessoas da comunidade ucraniana.

Mas o filme, uma vez compreendidos seu detalhismo e sua exacerbação como parte de um processo identitário, é capaz de tocar qualquer espectador. Iván Boiko é um personagem cativante em sua simplicidade de artesão e sua estatura de emblema histórico.

x x x

Em tudo diferente do filme de Guto Pasko, o ensaio documental Para Além das Montanhas, de Aya Koretzky, filia-se ao estilo intimista de Naomi Kawase para investigar uma história de imigração. Aya, a diretora, interroga seus pais sobre os motivos de terem trocado o Japão por Portugal nos anos 1990, quando ela ainda era criança. Na verdade, são várias histórias de imigração que se cruzam dentro do filme, já que a mãe de Aya era belga e conheceu o marido japonês no Japão. Para Aya, filha mestiça e deslocada para terra estranha, remontar a trajetória da família é um processo vital de aquisição de memória.

Ela faz isso com uma dicção delicada, associando o áudio da conversa com os pais e da leitura de cartas com imagens da natureza e de animais, fotos e vídeos caseiros. Ao contrário da emoção épica e expansiva dos ucranianos – num filme, digamos, masculino –, temos aqui uma rememoração suave, um passado bem mais recente que nos chega como coisa sedimentada e refletida.

Em contraste com a fervilhação urbana e as ameaças nucleares do Japão, Portugal surge nos relatos dos Koretzky como um lugar de serenidade, segurança e equilíbrio. É de uma outra noção de pátria que se trata aqui. Nesse sentido, a terra escolhida espontaneamente pelos Koretzky se assemelha à pátria adquirida por força das circunstâncias por Iván Boiko, o Brasil que ele ama tanto quanto sua distante Ucrânia.

2 comentários sobre “Memórias de imigrantes

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