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Talvez sem o mesmo estardalhaço, O Som ao Redor pode estar tomando o espaço antes ocupado por Cidade de Deus como filme-síntese do Brasil contemporâneo. E não só para a crítica e os festivais estrangeiros, que o colocaram em várias listas de melhores filmes de 2012 (incluindo as do The New York Times, Film Comment e Indie Wire), mas também para o público brasileiro, que vê a classe média desbancar as favelas e periferias como protagonistas de dramaturgia.

Tudo isso tem muito a ver com o Brasil que alavancou milhões de pessoas de uma classe para outra pela mola do consumo. O doc A Família Braz e a novela Avenida Brasil, entre outros títulos, já tinham registrado esse deslocamento no imaginário social. Pernambuco não tem favelas pacificadas. Em lugar disso, tem uma tradição de violência rural que estende seu rastro até a capital.

Mas O Som ao Redor não é mero efeito de sociologia. É antes o acúmulo virtuoso e o ponto de excelência do próprio cinema brasileiro recente, do pernambucano em particular e do cinema de Kleber Mendonça Filho em particularíssimo.

A cine-antropologia pernambucana, que vem atualizando as questões entre casa-grande e senzala (falo disso nesse texto), é explicitada já nos planos iniciais, com fotografias que evocam o passado colonial de Pernambuco através dos engenhos. Desse prólogo caímos direto num pátio de área residencial urbana entulhado de crianças e babás. Estamos num condomínio de bairro nobre de Recife, onde quase todos os imóveis pertencem a um antigo dono de engenho. Como já vimos em Doméstica, de Gabriel Mascaro, as relações trabalhistas do latifúndio se reproduzem de maneira mais “cordial” na malha de vínculos empregatícios da cidade do século 21. Esse é o caldo social que Kleber Mendonça Filho vai habilmente reservar para o surpreendente desfecho do filme.

O ressentimento e a tolerância precária entre patrões e empregados estão na base de alguns plots desenvolvidos em O Som ao Redor. Mas há diversos outros temas se entrelaçando constantemente nesses poucos dias em que transcorre a ação. Há a tensão permanente causada pelo despeito e a desconfiança entre parentes e vizinhos, a busca da pequena vantagem que enerva as negociações, o espectro da violência rondando cada olhar. Há sobretudo a paranoia, que o filme estuda tão bem através dessa empresa de segurança que se instala no condomínio quase na base da chantagem. O medo precisa ser vendido junto com a proteção. O protetor de alguma maneira se assenhora dos protegidos, gerando uma espécie de paranoia dentro da paranoia. Uma sequência em especial transforma esse medo patológico numa experiência onírica literalmente apavorante.

O som dos latidos de um cão da vizinhança que infernizam a vida de uma dona de casa simboliza todas as invasões e vazamentos dessas colmeias habitacionais em que tudo repercute e tudo se comunica para além dos desejos. Silêncio e privacidade são as metas supremas de quem sobe na vida e espera que tudo esteja a postos para garantir seu bem-estar. Nesse aspecto, a sequência absolutamente magistral da reunião de condomínio ocupa o coração do filme, com o “julgamento” do porteiro dorminhoco, a promotoria e a defesa, apresentação de “provas”, etc. A cena contém ainda uma frase lapidar que diz bem da qualidade e precisão dos diálogos do filme. É quando uma moradora reclama que sua revista semanal (cujo nome recuso-me a citar) está “chegando fora do plástico”. Não é pouco o que a frase resume sobre a arrogância e o conservadorismo dessa classe média ciosa de seus pequenos privilégios.

O Som ao Redor fala com sutil veneno sobre o Brasil e com talento exuberante sobre o melhor cinema brasileiro de hoje em dia. E ainda: fala com segurança e coesão sobre a carreira do próprio diretor. Esse primeiro longa ficcional (seguindo-se ao longa doc Crítico) é uma espécie de súmula florescente de toda sua carreira pregressa. Lá está o enjaulamento das pessoas atrás de grades numa cidade violenta, pano de fundo do seu vídeo Enjaulado (1997). O clima de terror de A Menina do Algodão e o inusitado de Vinil Verde ecoam em algumas cenas do longa. Eletrodoméstica é citado diretamente na cena da máquina de lavar e Recife Frio ecoa não apenas no retrato da Recife feia apavorada pela violência, como até na aparição do protagonista Andres Schaffer como o turista perdido com as garrafas de cerveja.

Por fim – e ele talvez não goste de ler isso –, a forma como Kleber Mendonça Filho utiliza o seu  profundo conhecimento de cinema é uma lição para jovens cineastas brasileiros. Trata-se de fazer da cinefilia não um acervo de ostentação nem um fetiche a ser manipulado por puro voluntarismo, mas transformá-la em sabedoria para encontrar a forma expressiva e a medida justa de contar uma história profundamente brasileira, e ainda assim irresistivelmente universal.