Pílulas 15

Ainda que misture um pouco de água no seu whisky, THE ANGEL’S SHARE, o último Ken Loach, é mais que palatável. Comédia de redenção sobre um pequeno criminoso que se reinventa como provador de whisky, o filme tem a ternura e a violência típicas de quando Loach enfoca os outsiders. O roteiro destaca o humor de situações que poderiam estar num filme de Woody Allen ou numa clássica comédia de roubo. Além disso, é uma simpática introdução ao mundo dos apreciadores e colecionadores do néctar escocês. Mesmo sem ser um grande filme, achei melhor do que esse ROTA IRLANDESA atualmente em cartaz por aqui.

NO é um filmaço. Mostra uma das primeiras “vitórias” do marketing político na América Latina, a campanha pela deposição de Pinochet em 1988. O publicitário René Saavedra (Gael García Bernal) trabalha com os conservadores na propaganda de produtos e com os progressistas na campanha política. Condensa, assim, os dilemas de todo um ofício. O filme foi todo rodado no velho vídeo U-matic para não haver diferença entre a encenação e o material audiovisual da época. Alguns protagonistas da campanha de 1988 reaparecem em seus próprios papéis 24 anos depois.Se René é filho de um dissidente político, o diretor Pablo Larraín é filho de um senador conservador. NO nos atira dentro daquele momento de catarse como se fosse um documentário que tivesse conseguido captar todos os momentos decisivos. Mas é também um exercício extraordinário de ficção ao forjar uma lógica para os acontecimentos e retirar deles a dimensão humana que frequentemente se perde na voragem da História.

Meu nome é Carlos Alberto Mattos e sobrevivi a uma sessão de 20h30 no Cinemark Botafogo. O filme era AS AVENTURAS DE PI e comigo estavam minha mulher, os amigos Roberta Rangel, Renata Giudice, Fernando Hique Newlands e Alvaro. Estavam também uma mãe que explicava o filme inteiro ao filho que não conseguia ler as legendas; uma horda de retardatários que chegaram com seus farneis de piquenique; jovens irrequietos que achavam a diversão do filme de Ang Lee insuficiente e brincavam com os sacos e copos vazios; mulheres que antecipavam as ações do filme em altos brados. O espetáculo era impressionante na tela e extenuante na plateia. PI é melhor do que eu esperava, mas esse tipo de sessão é como dividir um barco salva-vidas com um tigre faminto.

Há duas forças opostas em O OLHAR INVISÍVEL. De um lado, os lugares comuns: todo reprimido é um tarado em potencial, todo repressor é um estuprador se as condições lhe permitem. De outro, há os lugares incomuns: uma mulher que frequenta banheiros masculinos, uma escola que condensa a atmosfera de uma ditadura moralista. Entre essas duas forças, encontrei um filme curioso, que talvez demore um pouco para estabelecer sua situação básica, talvez seja um pouco limitado como metáfora, talvez incorpore mais que critique no estilo visual a opressão do regime. Mas, ainda assim, um tijolinho interessante na ampla reconstrução dos anos de chumbo pelo cinema argentino.

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