O Congresso, o Circo, etc

O CONGRESSO FUTURISTA chega com as altas expectativas geradas pelo filme anterior de Ari Folman, o animadoc “Valsa com Bashir”. Mais uma vez ele usa a animação de maneira muito inventiva, agora para criar um mundo alucinatório no futuro, em que as pessoas consumirão seus ídolos não apenas pelos produtos culturais, mas por todas as vias possíveis, inclusive transformando-se em Frida Kahlo, Michael Jackson ou Jesus Cristo. Na verdade, temos dois filmes reunidos em um só. No primeiro, a atriz Robin Wright vive uma versão decadente de si própria, uma atriz de carreira fracassada que aceita ser escaneada para se tornar uma imagem digital à mercê dos interesses dos produtores de Hollywood. A cena do escaneamento, aditivada por um monólogo de Harvey Keitel, é um primor. Na segunda parte, 20 anos depois, Robin comparece ao tal Congresso Futurista (inspirado numa novela de Stanislaw Lem, o autor de “Solaris”) que se passa numa outra dimensão onde tudo é desenho animado. A passagem entre as duas dimensões é feita à base de aditivos químicos, o que inspira a psicodelia delirante da animação. A princípio fascinante, essa viagem de ácido pretende retratar a transformação das personalidades em produtos de consumo sob o pretexto do “livre arbítrio” absoluto. A liberalidade conduz, portanto, a uma distopia hipercolorida que nada mais é do que a abolição completa do Eu. Estamos um passo além do simulacro pós-moderno, ou seja, no vácuo absoluto das fantasias. O grande problema do filme é encontrar um caminho de volta à questão inicial da personagem de Robin Wright. A procura do filho portador de deficiências e perdido entre as duas dimensões parece mais um estorvo do que um instrumento da narrativa. Há um excesso de ideias, citações e caminhos intrincados que ofuscam o brilho do argumento central. Ainda assim, é um filme de ambições acima da média e de notável criatividade gráfica e cenográfica. E tem Robin Wright, a eterna Princesa Prometida, num papel de corajosa autocrítica que me deixou boquiaberto.

Para quem viveu ou não os anos 80, A FARRA DO CIRCO é uma deliciosa viagem no tempo. Em muitos aspectos. Na utopia pós-hippie que lançou as bases do coletivismo e da descentralização da cultura na cidade (e tentou no país). No último grito do Tropicalismo, que inspirava posturas, indumentárias, discursos e uma neo-geleia geral na oferta e no consumo de cultura. Na primavera do Asdrúbal e do rock BR, na aurora da nossa dança contemporânea, nas toscas e ingênuas tentativas de fazer uma arte patrocinada quando ainda não havia política de incentivos fiscais. É uma viagem até mesmo na estética VHS, com seus dropouts e “ventanias” na borda da imagem, tão adequada a evocar o espírito da época. O que se perde em qualidade de imagem e som ganha-se em riqueza de memória. Esse tesouro gravado na época por Roberto Berliner é usado agora, com alguns acréscimos imprescindíveis, para um retrato em primeira pessoa do Circo Voador. Ninguém fala além deles, nada se passa fora do calor dos acontecimentos. A montagem de Pedro Bronz cria um fio narrativo leve e solto, sem se prender a cronologias, mas sem perder de vista que está contando uma história. Uma história cheia de irreverência e pureza, doideira e empreendedorismo, desordem e objetividade. Vale a pena ver e viver tudo aquilo de novo.

Num cinema de shopping, entre a compra de uma bolsa, um lanche detox e uma conversa descontraída com uma amiga – eis a situação ideal para se ver OS HOMENS SÃO DE MARTE… E É PRA LÁ QUE EU VOU!. Monica Martelli leva para as telas o seu monólogo de sucesso e constrói uma adaptação razoavelmente eficiente, que, se é caracterizada por uma estética televisiva, pelo menos não deixa marcas da origem teatral. Os diversos parceiros com que ela se deita na busca pelo par ideal têm traços individuais bem definidos e pontuam com certa graça os dilemas de uma mulher urbana moderna às voltas com as demandas do afeto e com diferentes estilos de vida. Há momentos bastante divertidos, em contraste com outros muito banais. Entre estes, as intervenções sempre monocórdicas e afetadas do bofe Paulo Gustavo, que já passou da hora de virar o disco. De qualquer forma, e apesar do jeito GNT de ser, o filme não ofende a inteligência do espectador e se beneficia da espontaneidade e vivacidade da atriz/autora.

O documentário GOOD OL’ FREDA (fora de cartaz) é o enésimo a contar a história dos Beatles, mas o faz de um ângulo rigorosamente original: o da secretária de Brian Epstein e diretora do fã-clube, Freda Kelly. Daí que revisitamos os Fab Four do ponto de vista de uma fã que realizou o sonho de todas: chegar perto não só de um, mas dos quatro, e por um longo período. Freda frequentava o Cavern Club e, aos 17 anos, ganhou o emprego dos sonhos de toda uma geração de moças de Liverpool. Indagada se chegou a “sair” com algum, ela espertamente desconversa entre risinhos. Quando os Beatles se separaram, ela ficou grávida e virou uma dona de casa comum. Está com 67 anos e ainda trabalha como discreta secretária de uma empresa qualquer. Guardou apenas quatro caixas de recortes e cartas dos tempos em que era praticamente uma babá do quarteto e privava de convívio íntimo com as famílias de todos eles. Entre suas tarefas estava responder às cartas dos fãs e até coletar madeixas no cabeleireiro para presentear as mais fanáticas. Sorridente e quase simplória, a boa e velha Freda é uma personagem que vale a pena conhecer – e através dela, o lado familiar dos Beatles.

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