Nada de extraordinário

Foi o cinema de Jean-Pierre Jeunet que envelheceu ou fui eu que rejuvenesci? Só sei que UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA me pareceu tudo, menos extraordinário. Embora trate da genialidade e do trauma de um menino, o cheiro de naftalina supera em muito o aroma de fantasia. O fabuloso destino do garoto-prodígio T. S. Spivet o leva a fugir de casa para receber um grande prêmio científico pela invenção da roda de movimento perpétuo. Mas na comparação com seu rancho familiar no interior dos EUA, o mundo maravilhoso da cidade, das instituições e da televisão vai provar-se um atrativo enganoso. “There’s no place like home”, já dizia Dorothy em “O Mágico de Oz”. Não tem firula, fumacinha ou invasão do imaginário que disfarce o convencionalismo da história ou tire o filme de sua bacia morna. Não vi em 3D, recurso que tem sido elogiado, e que supostamente amplia o apelo visual, sem dúvida um ponto forte. Mas mesmo a exuberância cênica de Montana (filmada em Alberta, Canadá) e as sugestivas sequências de estúdio emitem um brilho fugaz, logo apagado pelas “barrigas” do roteiro, os excessos de caricatura e a falta de carisma geral. Eu me senti como uma criança que recebe uma bala e a desenrola, desenrola, até perceber que só tem papel colorido dentro de papel colorido.

Ficou pouco tempo em cartaz, mas é bem ruim esse CANTINFLAS – A MAGIA DA COMÉDIA. Não diria que chega a ser um desserviço à imagem do grande comediante mexicano, mas tampouco afirmaria que presta algum serviço. O diretor Sebastián del Amo, que havia sido mais feliz no recente “O Fantástico Mundo de Juan Orol”, oferece aqui uma sucessão mal ajambrada de sequências para contar a ascensão de Cantinflas em paralelo às tentativas de Mike Todd de trazê-lo para o elenco de “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, já na fase de grande fama. A autocaricatura mexicana se alterna, então, com uma visão empostada e canastrona da Hollywood dos anos 1950. Entre muitas ênfases vazias, humor claudicante e referências cifradas à indústria cinematográfica mexicana, falta percepção de como Mario Moreno evoluiu de boxeador a astro máximo do cinema de seu país, ou de como o simplório e popular Cantinflas de repente dá lugar a um empertigado e dissoluto Mario Moreno. A partir de certo ponto, o melodrama moralista ocupa todos os espaços, com a tradicional degeneração de caráter do herói, a esposa relegada e a posterior tomada de consciência. Um roteiro pífio, movido a saltos aleatórios, coincidências primárias e cenas francamente desastrosas, como a de Mike Todd não reconhecendo Chaplin num restaurante. Como se não bastasse, as legendas em português estão cheias de erros e eliminam o pouco sabor contido do original. A qualidade da produção não salva esta biografia amplamente frustrada.

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