Snowden: herói e mártir

A múltipla escolha acrescentada no Brasil ao título original de SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR? procura inspecionar a opinião do espectador, mas absolutamente não se justifica no filme de Oliver Stone. Para o cineasta, frontalmente crítico ao status quo do governo americano, Edward Snowden é, sim, um herói. É um homem que nunca titubeou na convicção de que estava fazendo a coisa certa para colocar a segurança dos cidadãos acima da segurança do estado.

“Você terá outras maneiras de servir ao país”, prevê o oficial do Exército que o dispensa após um acidente de treinamento. A súbita aparição do Snowden real no lugar do ator Joseph Gordon-Levitt nas sequências finais, ao som da trilha sacralizante de Craig Armstrong, não deixa lugar para a opção “traidor”. Logo, o título brasileiro sugere uma polêmica que não está no filme, mas supostamente em sua recepção pelo público.

Independente do julgamento de cada um, SNOWDEN é uma habilidosa maneira de contar a saga de Edward e lançar farpas afiadas contra o governo Obama, o intervencionismo do sistema de segurança nacional americano e os supremos interesses do complexo industrial-militar. Stone parte do encontro de Snowden com Laura Poitras, Glenn Greenwald e Ewen MacAskill num quarto de hotel em Hong-Kong para a célebre entrevista que revelou sua identidade ao mundo. Funciona como um making of do documentário oscarizado “CitizenFour”, acrescido de dramatizações sobre a vida pessoal do entrevistado, narrada quando a câmera de Laura estaria desligada. Na verdade, o material vem dos livros The Time of the Octopus, do advogado russo Anatoly Kucherena, e The Snowden Files, do repórter Luke Harding, do The Guardian.

Stone trata o assunto com a sua competência habitual para fazer da política um thriller de espionagem e conspiração, não raro coroado pela figura do martírio. Snowden parece condenado a terminar seus dias na Rússia, definitivamente afastado da pátria e de quase toda a vida que levava antes.

A sólida investigação que dá base ao filme, porém, não dilui a sensação de que já sabíamos de tudo aquilo. E o que não sabíamos – detalhes da guerra cibernética e dos programas hackeadores – continuaremos sem saber, de tão hieroglíficos que soam. SNOWDEN é um bom filme politicamente correto, com ótima atuação de Gordon-Levitt e de todo o elenco, mas, ao contrário de outros títulos de Stone, não tem potência para causar grandes abalos.

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