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MUCH LOVED corre o risco de ficar mais conhecido pelo escândalo que causou no Marrocos do que pelas inúmeras qualidades do filme. Depois que imagens vazaram quando da exibição na Quinzena dos Realizadores de Cannes, mostrando prostitutas de Marrakech fazendo danças eróticas para clientes sauditas ou lambendo o corpo de clientes europeus, o filme foi interditado no Marrocos, o diretor Nabil Ayouch e o elenco foram ameaçados de morte por islamitas radicais e a atriz principal, Loubna Abidar, teve que se exilar na França depois de sofrer uma brutal agressão numa rua de Casablanca.

A crônica do dia-a-dia de três prostitutas não disfarça uma visão realista do ofício na metrópole marroquina. Elas não medem palavras para comentar detalhes do seu ofício e anatomia. Aceitam ser humilhadas e animalizadas em festas milionárias, desde que os dólares escoem para suas bolsas, mesmo que sejam roubados e escondidos em lugares muito íntimos. Essas mesmas meninas são as que sustentam pais e irmãos, ajudam financeiramente o namorado, são extorquidas por policiais e procuram consolo em ilusões de príncipe encantado (saudita, claro) ou de um pai distante e inacessível. Cada uma tem um perfil peculiar: Noha (Loubna Abidar), a líder e mais fustigada pela vida; Sokaina (Halima Karaouane), a romântica; e Randa (Asmaa Lazrak), a mais imatura e ainda construindo sua orientação sexual. Juntas, elas formam um trio cativante pelo misto de libertinagem e ingenuidade, malícia e ternura com que se expõem em público e se amparam mutuamente no apartamento que dividem.

Depois de enfocar crianças sem teto em “As Ruas de Casablanca” (2000), o mais bem-sucedido diretor marroquino passeia sua câmera agora pelas ruas de Marrakech. As protagonistas de MUCH LOVED, às quais vão se juntar uma quarta menina, um michê travesti e um devotado motorista, são parte de uma paisagem social onde a mulher costuma ser objeto de consumo ou de sujeição. O filme, porém, não investe na dramatização do que em si já é dramático. Ao contrário, tempera a dureza do quadro com um humor radiante, forjado na colorida convivência das personagens. A magnífica atriz Loubna Abidar, cujos olhares dizem mais que mil palavras, é casada com um empresário brasileiro e serviu de consultora para o roteiro. Ela conviveu com prostitutas no passado e conta sua história no livro “La Dangereuse”, lançado em maio.



Cenas de um casamento paulista. O casal protagonista de CANÇÃO DA VOLTA passa por uma crise tipicamente urbana. Júlia (Marina Person) tem depressão e compulsão suicida. Às vezes some de casa ou se desliga dos compromissos familiares. Edu, o marido (João Miguel), e o filho sofrem muito com isso. E ainda por cima Edu suspeita que ela o está traindo. Até hoje não sabe quem ela é de verdade. Segue-a e bisbilhota sua privacidade para tentar descobrir. Nos poucos dias em que se passa o filme, nossa percepção do casal vai se modificando. Uma inversão vai se operando progressivamente entre o que é sanidade e o que é transtorno, entre fidelidade e traição, entre o controle absoluto da vida e o caos trazido pela incerteza.

O processo se dá tanto nos atores quanto na direção de arte. O apartamento (onde moram, casados, a atriz e o diretor Gustavo Rosa de Moura) parece um mostruário, imagem expressionista de um desejo de ordem, arrumação e bom gosto. Daí o efeito obsedante ou quase aterrador que oferecem, por exemplo, uma taça rachada ou uma luminária fora de prumo. Em certos momentos, o imóvel se converte em metáfora, aparecendo ora emparedado, ora completamente esvaziado. O estilo carrega a mão para dar tintas de thriller a uma história que não chega a ter elementos reais para tanto.

De qualquer forma, em seu primeiro longa de ficção, Gustavo Rosa de Moura demonstra mão firme para sustentar uma dramaticidade concentrada, lacunar e sugestiva. O elenco se sai muito bem, com destaque para a atuação ao mesmo tempo intensa e matizada de Marina Person, para mim uma revelação de atriz.