As exéquias de um hospital

A chuva logo desfez minhas esperanças de tempo bom em Curitiba. Em compensação, o festival Olhar de Cinema parece um pequeno sol de simpatia e eficiência. Ontem (quarta), depois de um rápido encontro com meus colegas de júri da crítica (Abraccine), nas instalações impecáveis do Espaço Itaú de Cinema, no Shopping Crystal, assisti à versão de longa metragem do documentário HU, que comento a seguir.

HU tem uma proposta relativamente ousada de apresentar as exéquias de um hospital público. Se o imenso prédio do Hospital Universitário da UFRJ, no Fundão, tinha uma parte ainda ativa, apesar de condições precárias, e outra (a “Perna Seca”) vazia e em lento processo de demolição espontânea, o filme de Pedro Urano e Joana Traub Czekö divide frequentemente a tela em duas, enfatizando aquela estranha dicotomia. Ressalta a profusão de corredores e os vastos andares ociosos, onde proliferavam vazamentos e os pisos estavam cobertos de escombros caídos dos tetos.

Arquitetura, saúde e educação se cruzam nos depoimentos e reflexões de personagens que vemos sentados em seus gabinetes ou percorrendo os espaços do hospital como pontos de referência vazios ou redundantes para o esquadrinhamento das câmeras. Há um tanto de denúncia e outro tanto de apropriação estética das instalações do hospital, o que às vezes me soa como uma contradição. O experimentalismo na trilha sonora e no espelhamento de imagens das telas duplas parece uma imposição por demais formalista a um cenário que inspira desolação mais que tudo. O fato de Joana Csekö ser fotógrafa explica certas escolhas, mas não se pode negar que o filme ganha bastante quando opta pela observação sóbria e seletiva. É o caso da cena em que uma funcionária residente abre com dificuldade um portão para ter acesso a uma plantação num dos andares da ala arruinada.

Em relação à versão que eu já conhecia, de cerca de 50 minutos para o DOCTV, o longa tem um importante – e impactante – acréscimo: a implosão da ala podre, levada a cabo em dezembro de 2010. Seis décadas depois de idealizado pelo Estado Novo e mais de 30 anos após sua inauguração pela ditadura militar, o mastodonte modernista sofria sua amputação sob uma nuvem espessa de poeira que se espalhou pela Baía da Guanabara. O silêncio que encerra HU diz bem mais que a retórica de sua exposição até ali.

2 comentários sobre “As exéquias de um hospital

  1. Pingback: Mostra de Tiradentes: Rio subterrâneo, Paraná rural | carmattos

  2. Alé, de tratar mal os hospitais públicos ( do Fundão é emblemático desse menosprezo), agora a Mirian Belchior deu para Dilma assinar (e ela assinou) uma Medida provisória (MP é herança maldita da ditadura que ninguém abre mão) que reduz o salário dos médicos do Serviço Público em 50%. Inconstitucional, ilegal e imoral. Dane-se o serviço de saúde pública que vem agonizando há vários governos e governantes. Agora, talvez venha o golpe de misericórida..

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