Goiás Velho FICA assim

Praça do Coreto

Estou em Goiás Velho a convite da ABD-Goiás para compor o júri da Mostra ABD (Associação Brasileira de Documentaristas). Este ano é especial, uma vez que o montante dos prêmios para filmes goianos cresceu de 40 para 120 mil reais. Não é pouca coisa para um prêmio ABD. Até o ano passado, O FICA – Festival Internacional de Cinema Ambiental destinava 80 mil a premiar os dois melhores filmes goianos da mostra competitiva principal. Como nesta edição não foram selecionados filmes locais, a ABD conseguiu que os valores migrassem para a mostra paralela. São, então, 13 prêmios para serem distribuídos entre 15 filmes, sendo 14 curtas e um longa, incluindo ficções, documentários, animações e experimentais.

O FICA é o grande investimento do governo do estado em evento de cinema. Este ano o orçamento chega a 4,5 milhões de reais. Isso gera benefícios mas também distorções. Nos últimos 14 anos, a competição oficial direcionou a produção goiana prioritariamente para os filmes de temática ambiental. Para muitos realizadores jovens, isso empobrece uma cinematografia que já não desfruta de grande visibilidade nacional. Não é o caso da Mostra ABD, em que vale qualquer tema, gênero ou formato. O único longa dessa programação, por exemplo, é Cartas para Kuluene, um ensaio reflexivo de antropologia realizado por Pedro Novaes, filho de Washington Novaes. Ele comenta sua experiência de visitar o Xingu à luz das histórias de dois expedicionários estrangeiros que se aventuraram entre os índios brasileiros no início do século passado.

Aceitei o convite para esse júri também pela oportunidade de conhecer a Cidade de Goiás (esta a maneira politicamente correta de chamá-la). A antiga Vila Boa de Goyaz é Patrimônio Histórico e Cultural Mundial reconhecido pela Unesco. Seus casarões coloniais e igrejas antigas cochilam sobre ruas de pedras ao sol do cerrado. Na praça do Coreto, todos correm aos sorvetes caseiros ou se emocionam com as esculturas sacras de Veiga Valle, o Aleijadinho goiano, expostas no Museu de Arte Sacra da Boa Morte. A poucos metros dali, o Cine-teatro São Joaquim exibe a mostra competitiva principal, enquanto o “Cinemão”, (bem) improvisado no ginásio de uma escola, abriga a programação paralela.


Em outros espaços, ocorrem oficinas de meio-ambiente, um forum ambiental e dois minicursos. Um deles é de Ismail Xavier sobre documentário e teatralidade a partir de Eduardo Coutinho; o outro é de José Miguel Wisnik sobre canções no cinema. Ou seja, nem tudo no FICA é sobre meio-ambiente. Há shows de Nando Reis e Caetano Veloso, entre outros. A cidade aproveita para viver o assunto em cada esquina. Escolares apresentam publicamente seus trabalhos sobre o cerrado, o artesanato e as artes plásticas locais se põem nas vitrines.

A casa de Cora Coralina e a Igreja da Boa Morte (foto ao lado) se vestem à noite com projeções coloridas e os bares se enchem de jovens vindos de Goiânia, Brasília e várias partes do Brasil, sem faltar sotaques estrangeiros. Goiás Velho nessas horas afasta o estigma da decadência, frequente em sua história desde o fim do ciclo do ouro. A cidade foi capital do estado entre o século 18 e o início do século 20, antes que essa condição passasse para Goiânia. Hoje, vive basicamente do turismo e da memória. E muito do FICA.

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