Um conto uruguaio

Sucesso de estima na cinefilia internacional, La Vida Útil é um pequeno conto filosófico sobre o fim de um certo tipo de cinema e o princípio de um amor. O filme de Federico Veiroj carrega uma melancolia muito tipicamente uruguaia, sobretudo em sua primeira metade, que se passa nos interiores da Cinemateca de Montevidéu. Muitas cinematecas latino-americanas têm hoje em dia esse aspecto melancólico, como bichos em extinção. Apesar do letreiro inicial que nega maior semelhança, é fácil deduzir que a história ficcional não está muito longe da realidade.

No filme, a cinemateca está perdendo sócios e apoio, a ponto de ser despejada. O quadro é de aluguel em atraso, sessões semivazias, equipamento defasado, programação pouco atraente. Na primeira sequência, o diretor da cinemateca – ele mesmo, Manuel Martinez Carril – e seu auxiliar Jorge (vivido pelo crítico Jorge Jellinek) dividem as tarefas de um ciclo de cinema islandês. Depois os veremos em tarefas prosaicas como ler num microfone a tradução dos intertítulos de clássicos mudos, explicar a cineastas as razões da má projeção de seus filmes na sala mal equipada, revisar cadeiras ruidosas e gravar mensagens pedindo ajuda dos frequentadores.

Jorge é um faz-tudo da cinemateca. Trabalha ali há 25 anos e, pelo visto, ultimamente passa a maior parte do seu tempo andando de lá para cá, com seu jeito de Alfred Molina bonachão. Quando a situação da entidade enfim se define, ele sai com sua bolsa em busca de novas aventuras. É aí que o filme também faz uma inflexão no rumo da comédia romântica. Nada que se pareça com filmes de George Clooney e Julia Roberts, mas sim um delicado ensaio de superação que se aproxima mais – e bastante – dos filmes de Chaplin, Ozu e do neorrealismo italiano.

Esta é a maneira como Federico Veiroj trabalha sua homenagem ao cinema clássico e ao mesmo tempo faz a crônica do fim de um tipo de consumo desse mesmo cinema clássico. As cinematecas que resistem são as que se reinventam, adotam o cinema digital e olham simultaneamente para o passado e o futuro.

Jorge sai da cinemateca para entrar na vida, a vida útil do título, ou seja lá o que isso for. Caminhando pela cidade em busca de um certo encontro, ele abandona a contemplação e se torna personagem do seu próprio filme particular. Pode fingir que é um professor ou improvisar-se num Gene Kelly desajeitado. O elogio da mentira, que ele apresenta aos alunos de uma faculdade numa das melhores cenas do filme, é o elogio da ficção pura e simples, base de toda representação. O crítico se finge de ator, a cinemateca encena seu próprio declínio, o filme de 2010 assume uma aparência de 1950.

A equipe de filmagem de “A Vida Útil”

La Vida Útil foi filmado em película colorida e copiado em preto e branco com uma máscara para ficar com a imagem quadrada como os filmes de seis décadas atrás. Os créditos foram todos colocados no início para que no final se tenha somente a velha e dura cartela de “Fim”. Em tudo isso vai um misto de carinho e distanciamento em relação ao “filme de cinemateca”. No fundo, é como um hai-kai de sentido oblíquo, que nos afaga e perturba ao mesmo tempo.

P.S. Jorge Jellinek é o mais famoso crítico do Uruguai. Sua atuação despojada e sóbria neste filme é um raro exemplo de crítico protagonizando um longa-metragem ficcional. Um crítico da Variety citou os casos recentes de Glenn Kenny em Confissões de uma Garota de Programa, de Steven Soderbergh, e Mark Peranson em Birdsong, de Albert Serra. No Brasil, o caso mais próximo é o de Jean-Claude Bernardet em Filmefobia, de Kiko Goifman. Bernardet fez muitos papéis secundários, assim como Paulo Emilio Salles Gomes e Rubens Ewald Filho. Não aconselho ninguém a conferir a performance, mas eu também já paguei esse mico numa pontinha do curta Rota de Colisão, de Roberval Duarte. Fazia o papel de um repassador de pedras preciosas que é roubado na Avenida Rio Branco. Felizmente, o ladrão levou junto a minha carreira de ator.

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