A Europa está doente

O português COLO e o francês A TRAMA dramatizam a crise econômica e política da Europa refletida nas instâncias da família e do indivíduo 

É bom saber de antemão o que se vai encontrar num filme da diretora portuguesa Teresa Villaverde (Os Mutantes, Três Irmãos, Cisne): jovens ou adolescentes à deriva, personagens abatidos pela solidão ou a falta de perspectivas, vagando por ambientes lúgubres e paisagens cinzentas. Em COLO, seu opus mais recente, os efeitos da crise econômica fazem Lisboa parecer uma cidade do Leste europeu, quase uma Bucareste às margens do Tejo, não fossem os prédios modernos avistados no horizonte distante.

Ali vive Marta, 17anos, seu pai desempregado e a mãe que se desdobra em vários empregos para conseguir colocar alguma comida na geladeira. Quando o filme começa, percebemos que já há algum tempo a falta de dinheiro acarretou uma apatia afetiva entre eles. O que se segue é um compassado relato da desintegração dessa família e uma às vezes surpreendente recomposição de laços fora do grupo. Uma amiga de Marta, da sua mesma idade e grávida, será peça fundamental nesse curiosíssimo movimento de dramaturgia.

O colo, aqui, é uma metáfora da ternura e do acolhimento que cada personagem vai procurar em outra parte, cada qual guiado por um traço de sua personalidade. Uns pelo impulso autodestrutivo e auto-humilhatório, outra pela anulação do seu papel familiar, outra ainda pelo desejo de independência. Dar ou receber colo e consolo, por mais precário e enganoso que possa ser, é uma necessidade vital quando a crise se aprofunda e o tecido social mais básico, o da família, se esgarça.

Teresa requer do espectador uma disposição para aceitar sua estética da depressão. As locações são desoladas, as composições visuais recusam qualquer brilho, a duração de algumas cenas pode ser exasperante, as atuações são lacônicas. Apesar de tanta prostração, o interesse se sustenta não só pela integridade com que a diretora administra seus recursos, como pela insinuação de uma expectativa constante quanto aos próximos passos dos personagens. Não um suspense clássico, mas uma inquietação quanto ao que eles vão impor a seus próprios corpos.



Os atentados terroristas de 2015 em Paris e a ascensão da extrema direita na França estão no pano de fundo de A TRAMA, o novo filme de Laurent Cantet. A propagação de ideias e comportamentos fascistas pela internet e a crise de perspectivas de uma juventude alheia à realidade e ao passado histórico ajudam a formar um vácuo ideológico perigoso e difícil de controlar.

Por uns momentos, o filme parece enveredar pelo mesmo caminho da obra-prima de Cantet, Entre os Muros da Escola. Um pequeno grupo de jovens de província, com a diversidade étnica e religiosa de praxe, se reúne em torno de uma escritora parisiense para uma oficina literária. A postura agressiva deles se choca com o equívoco da intelectual, que se julga capaz de “ajudar” os alunos. Eles se lançam à criação coletiva de um esboço de romance policial.

A situação me trouxe à memória o possante documentário Jardim Ângela, de Evaldo Mocarzel, em que jovens de uma comunidade da periferia paulista participam de uma oficina de vídeo e discordam quanto à perpetuação da imagem de violência do lugar em que vivem. A TRAMA se passa na cidade portuária de La Ciotat (aquela mesma em cuja estação chegou o trem pioneiro dos Lumière), antiga potência de estaleiros e hoje em decadência. As memórias de um passado comunista contrastam com o atual canteiro de ideias de direita. Numa cena, ao mostrar trecho de um discurso de um tal Luc Borel, Cantet está aludindo indiretamente ao ideólogo Alain Soral, uma espécie de Olavo de Carvalho francês.

Dessa vez, o arcabouço dramático montado por Cantet e seu habitual colaborador Robin Campillo mostra-se bem mais frágil que em filmes anteriores. Os dilemas colocados na oficina logo saem de foco para dar lugar à relação de curiosidade e obsessão mútuas entre a escritora e Antoine, o aluno mais provocador da turma. Uma proposta literária ultra-violenta e um comportamento soturno vão torná-lo personagem-chave dessa radiografia do lobo solitário à mercê do conservadorismo destrutivo.

(Atenção! O próximo parágrafo contém um pequeno spoiler)

O filme carece de ritmo e padece de um certo esquematismo na oposição entre a figura da professora, representante das ideias positivas e das boas intenções, e o mundo dos jovens com suas mentes confusas. A hipótese da salvação pelo trabalho soa igualmente convencional, apenas ecoando uma fixação temática do diretor.

Um comentário sobre “A Europa está doente

  1. Generosidade, seria a palavra para adjetivar esse olhar, e, como assistí ao Jardim Ângela, do colega de UFF, encontrei respaldo adequado e síntese pra leitura. Vc me representa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s