Uma Maria como poucas

Marcel Duchamp (no centro, à frente) e Maria Martins (atrás, à direita) numa rara foto em que aparecem juntos

Entre a embaixatriz que se assinava “Madame Carlos Martins” e a artista plástica Maria Martins havia um trânsito interessantíssimo que o documentário MARIA: NÃO ESQUEÇA QUE EU VENHO DOS TRÓPICOS desenha com razoável habilidade. A mulher da alta classe que ousou desquitar-se nos anos 1920 e depois manter um romance secreto (adúltero, se diria então) e intensa colaboração artística com Marcel Duchamp, por si só, já é uma personagem e tanto. Mas Maria Martins foi também uma das escultoras mais ousadas do mundo e uma locomotiva das artes no Brasil da década de 1950.

Suas obras, plenas de dramaticidade e de “uma sexualidade que mordia”, no dizer de Miguel Rio Branco, surgem aqui muito bem filmadas, em grande parte contra um fundo neutro que destaca seus contornos conturbados. O filme sai em busca de arquivos recônditos, onde se encontram desenhos, gravuras e joias pouco conhecidas.

Paulo Herkenhoff, Michael Taylor (Museu de Arte da Virginia, EUA) e Carolyn Christov-Bakargiev (curadora da dOCUMENTA 13), entre outros, dão finas interpretações da produção de Maria e de seu lugar no cenário do Surrealismo. O perfil se complementa com pequenas encenações de seu diálogo com Clarice Lispector e da leitura de cartas. Só faltou justificar a presença inócua de Malu Mader como uma “entrevistadora” que parece estar ali apenas a passeio. Consta que era ela quem dirigiria o filme, mas isso tampouco justifica sua participação.

A assinatura de direção é de Francisco C.(Cataldo) Martins, que no passado respondia por Ícaro Martins na direção de dramas eróticos como O Olho Mágico do Amor e Onda Nova em parceria com José Antonio Garcia. Mais recentemente, dirigiu com Helena Ignez Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha. Portanto em seu primeiro longa solo, Martins aborda com relativa timidez uma história de vida das mais turbinadas.

De qualquer forma, lá está o perfil de uma mulher pioneira como indivíduo independente e artista sem autocensura. Riquíssima e íntima da nata internacional, Maria Martins era também admiradora de Mao Tsé-Tung (numa possível semelhança com a mãe de João Moreira Salles, enfocada em No Intenso Agora). Tanto desenhava joias para ladies nova-iorquinas como escrevia livros sobre a China e a Índia. A expressão “Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos” é título de uma de suas esculturas, mas também uma pista para o atrevimento do seu olhar.

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