O triunfo de Karine

BENZINHO

O cano da pia está vazando. A porta enguiçou e todos têm que entrar e sair pela janela. Os gêmeos  hiperativos exigem atenção permanente. O do meio não para de comer. Os empreendimentos do marido não dão certo. A irmã está fugindo do marido drogado e violento… Enfim, a vida de Irene (Karine Teles) não está pra bolinho. Mas o pior ainda está por vir: o mais velho, chamego absoluto da mamãe, foi convidado para jogar handebol na Alemanha e parte em apenas 20 dias.

Karine é a autora da história e principal força motriz de BENZINHO, co-escrito e dirigido por seu ex-marido Gustavo Pizzi (“Riscado”, “Pretérito Perfeito”). A gente não precisava de mais essa prova de que a atriz é um espanto, um fenômeno de controle tanto na sutileza das minúcias, quanto na erupção vulcânica dos ímpetos. Ela vive aqui uma mãe edipiana, esteio de uma família de classe média de Petrópolis. Nem a alegria com que convida todo mundo para sua tardia formatura no ensino médio, nem a entrada do filho do meio com sua tuba na banda da cidade podem compensar a sensação de ninho vazio com a “perda” do primogênito.

Na origem de BENZINHO está certamente uma fina observação do funcionamento das famílias, aliada a uma escritura naturalista admirável. Contribui para essa impressão de veracidade o fato de Karine contracenar com seus dois filhos gêmeos e trazer para a cena uma imensa compreensão do que vive sua personagem. O jogo duro para evitar a partida do garoto, a transferência da contrariedade para a esfera doméstica, as dissimulações emocionais, tudo compõe um quadro extremamente veraz, tocante e divertido.

Tecnicamente, o filme é um acerto de ponta a ponta. A fotografia de Pedro Faerstein é primorosa na instauração de uma poética visual para temperar o naturalismo. Destaco o trabalho nos closes de Karine, quando pessoas ou objetos se interpõem entre rosto e câmera, conotando a desorientação de Irene. O ritmo ágil e estimulante é garantido pela montagem de Lívia Serpa, enquanto a trilha de Dany Roland sublinha os aspectos cômicos e dramáticos com grande perspicácia.

Gustavo Pizzi levou sete anos entre o segundo e o terceiro longa-metragens. Tempo demais para um realizador qualificado como ele. Mas o que BENZINHO nos oferece é um filme feito evidentemente com amor e cuidado, desses que não dá pra fazer às pressas.

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