Um mar de mortos

BARCO PARA LIBERDADE no streaming

Essa produção australiana rodada no Camboja e na Tailândia ganhou adeptos em festivais por sua extrema dramaticidade. Levou o Prêmio do Júri Ecumênico no Panorama do Festival de Berlim e foi a escolhida para representar a Austrália na disputa do Oscar de 2020. Tem um apelo político na medida em que denuncia o trabalho escravo nos barcos pesqueiros tailandeses e pretende alertar a juventude cambojana para os riscos da imigração.

Essa repercussão se baseia, porém, numa exploração de certos clichês típicos do drama de denúncia. Existe um confronto brutal entre a inocência do menino Chakra, de 14 anos, e as atrocidades com que ele vai se defrontar em sua aventura. Cansado do trabalho extenuante nas plantações de arroz sob o jugo do pai, Chakra foge para a Tailândia na esperança de conseguir um emprego mais decente. Cai nas garras do tráfico de trabalhadores escravos e se vê cativo de uma embarcação pesqueira, sob condições de trabalho e subsistência desumanas.

Claustrofobia em alto mar. O capitão do barco é mais cruel que o cão chupando manga. Sua forma de tratar os empregados faz alguém chamar o Golfo da Tailândia de “um mar de mortos”. Chakra presencia horrores e tenta se safar fingindo-se de servil ao capitão. Encontra nele outro pai patrão, que o “adota” com requintes de sarcasmo. O filme, então, se apoia na dúvida quanto à possibilidade do garoto resistir e se libertar. O estúpido título brasileiro, Barco para Liberdade, é em si um spoiler. O título original, Buoyancy, refere-se à capacidade de flutuar, boiar, ou seja, sobreviver. Na Mostra de São Paulo, passou como Empuxo.

O diretor Rodd Rathjen cresceu em fazendas da Austrália, o que supostamente o inspirou nessa história de um menino que deixa a fazenda da família. No Camboja, encontrou apoio do grande documentarista Rithy Panh, que assumiu a produção executiva local. Mas, como as boas intenções nem sempre fazem bons filmes, este não conseguiu ultrapassar o nível básico dos dramas de sobrevivência em contexto violento. Chakra não chega a ser um personagem, mas apenas um instrumento de exposição, expectativa e, finalmente, choque.

>> Barco para a Liberdade está na plataforma Belas Artes à la Carte

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