Compêndio de infelicidades

HOMEBOUND

Pré-selecionado para o Oscar de filme internacional, o representante da Índia exemplifica o filão dos melodramas familiares em tudo oposto a Bollywood. Nada de música e dança, nenhum romance enfrentando as convenções sociais, nem tampouco cenografia exuberante. Homebound é um drama realista sobre as aspirações mais básicas de dois amigos de infância.

Chandan, um dalit (da casta dos intocáveis), e o muçulmano Shoaib enfrentam a discriminação por suas origens humildes. As opções para jovens como eles não são muitas: subempregos, emigração para a construção civil em Dubai ou conseguir uma vaga no serviço público. Eles se inscrevem num concurso para policiais, cargo que lhes trará farda, respeito e salário razoável.

O filme de Neeraj Ghaywan explora os dilemas que a ambição e a concorrência podem colocar para a preservação de uma amizade. Chandan e Shoaib são solidários e inseparáveis quando estão em pé de igualdade. Caso contrário, o ressentimento põe em risco o afeto.

Homebound pinta um quadro angustiante da condição desses jovens e suas famílias, que se acentua com a chegada da pandemia e seu rastro de paranoia, intolerância e repressão policial. É curioso que, mesmo diante das agressões cometidas pelas forças policiais, eles em nenhum momento reflitam criticamente sobre o desejo de se juntar a elas.

A trama avança por meio de elipses temporais, diálogos explicativos e as caracterizações ingênuas típicas do melodrama indiano. No último ato, especialmente aflitivo, o dado trágico é sublinhado à exaustão. Que não se espere sutileza desse compêndio de infelicidades.

>> Homebound está na Netflix.

 

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