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A imagem inicial de O Homem ao Lado – as duas faces de uma parede sendo perfurada por golpes de marreta – nos dá a falsa impressão de que veremos os dois lados da história. Mas a proposta de Mariano Cohn e Gastón Duprat é bem mais complexa e provocativa do que uma suposta objetividade equidistante.

Atenção: este texto revela desdobramentos essenciais da trama. Não leia se você ainda pretende ver o filme.

A escolha mais importante é colocar o espectador sempre no ponto de vista do designer. A princípio, é fácil identificarmo-nos com o pai de família que de repente encontra o vizinho abrindo uma janela que dá diretamente para a intimidade da sua casa. A privacidade, tão valorizada pela classe média, parece a questão fundamental. Mas as fissuras vão logo aparecer nesse código de identificação. Leonardo e Vítor não são apenas o que sugerem ser à primeira vista.

Vítor, o vizinho, vai se mostrar surpreendentemente doce e quase carente, apesar do tipo vulgar. Só o conheceremos pelos contatos com Leonardo e pelas reações a esses contatos. Nunca veremos o interior de sua casa, a não ser pelo quadrado mal iluminado da janela em construção. Nosso interesse se abre sobre ele. Quando percebemos, somos nós os voyeurs, desejosos de mais alguma fresta para a vida daquele homem meio misterioso.

Leonardo, por sua vez, vai passando de vítima a algoz desajeitado. Revela-se um pequeno-burguês caricato, arrogante nos preconceitos culturais, incapaz de estabelecer relações saudáveis sequer com a mulher e a filha – que, aliás, são outros personagens-sintomas de uma classe fechada em si mesma. Leonardo habita uma casa de interesse histórico em Buenos Aires, construída por Le Corbusier, e mesmo assim pretende manter o controle sobre a curiosidade pública. Suas tentativas de intimidar Vítor são canhestras e ridículas. A partir de certo ponto, já não podemos mais nos identificar com Leonardo. É quando nos vemos perdidos entre os dois lados da parede, um pouco como acontecia com O Invasor, de Beto Brant.

Chega, então, a hora das cartadas finais. Ambos os personagens já se estabeleceram em nossa consciência como misturas ambíguas de vítimas e algozes. As penúltimas cenas vão lançar uma nova camada sobre o papel de cada um deles. Como bem reparou minha mulher – e a maioria dos críticos não registrou –, somente ao espectador é dada a informação de que Vítor conduzia um processo de sedução da filha de Leonardo através do teatrinho de dedos na janela. Da mesma forma, só o público fica sabendo que Leonardo deixa Vítor deliberadamente morrer na cena pós-assalto, à maneira de Bette Davis em Pérfida, de William Wyler.

O tema de O Homem ao Lado não são portanto as janelas que abrimos sobre os outros, mas as que nos permitimos ou não abrir sobre nós mesmos. E nesse jogo de encobrimentos e revelações, o espectador tem um papel dinâmico e crítico. Fico pensando que uma das características mais interessantes do cinema argentino recente, não compartilhada com o cinema brasileiro, é considerar o público como parte do jogo, em vez de meros observadores passivos.

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