O Hotel, o anão e a extraterrestre

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE comprova que Wes Anderson é um dos poucos cineastas contemporâneos capazes de criar um mundo de fantasia sem recorrer a efeitos especiais e tecnologia de ponta, mas sim com os recursos tradicionais de um cinema que praticamente não existe mais. Essa aventura passada nos anos 1930, numa república fictícia da Europa Central, evoca tanto a dupla Buster Keaton/”Fatty” Arbuckle de “The Bell Boy” quanto o Chaplin de “Monsieur Verdoux”, sem falar no Lubitsch de “Ser ou Não Ser”. Cenários pintados, miniaturas e animação stop motion se valem do digital para enfatizar o aspecto artesanal. A amizade devotada entre o concièrge do hotel e o jovem mensageiro os leva numa montanha russa de ação que inclui roubo de quadro, fuga de presídio, batidas policiais em trens e perseguição de um matador implacável a serviço da nobreza. Os ecos da ocupação nazista e da II Guerra chegam em forma farsesca, mas não deixam de contaminar com alguma obscuridade esse exótico divertimento. Anderson se supera na conjunção de uma extraordinária direção de arte com uma maneira muito particular de filmar. Grande parte do humor vem das surpresas reservadas pelos enquadramentos e a montagem. A simetria, que usualmente se presta ao rigor e ao equilíbrio, aqui é fonte de desconcerto e comicidade. O filme tem o sabor e a invencionice da boa contação de histórias, com um belo uso da tela quadrada para situar seu longo flashback nas dimensões do velho cinema. O elenco é uma atração à parte, muito embora você quase não reconheça boa parte das estrelas por baixo das perucas e por trás da maquiagem. Acho que já é hora de levarmos Wes Anderson a sério como um grande criador. A exuberância cênica deste filme está recheada por uma fábula de primeira grandeza sobre lealdade, sorte e o doce perfume da inconsequência. Arrisco dizer que é uma obra-prima.

A comédia romântica portenho-brasileira CORAÇÃO DE LEÃO reafirmou minha incompatibilidade com um tipo de divertimento vendido como “popular”, mas que só se presta a difundir vulgaridades, alimentar preconceitos e veicular valores questionáveis. No filme, como bem se sabe, uma advogada de estatura avantajada é cortejada por um anão, pelo qual se apaixona, e hesita em enfrentar suas próprias reservas e o estupor social causado pelo namoro. Até aí, nada demais. O problema é como o filme explora esse humor preconceituoso, fazendo com que a plateia ria das diferenças, enfatizando-as até com os saltos gigantescos usados pela moça. Mais que isso, os recursos de sedução do pretendente se resumem a suas posses: consumo de luxo, viagens charmosas, qualidades profissionais extraordinárias e competitividade acima da média. De resto, o cara é apenas um chato exibicionista que usa de tudo para compensar a baixa estatura. Mas nada disso abala sua condição de herói romântico. Para conduzir a história, Marcos Carnevale apela aos clichês mais deslavados, como o cachorrinho simpático, a sequência de separação debaixo de chuva, a secretária fofoqueira, o ex-namorado grosseirão e por aí afora. Nessa coprodução entre dois países, parece que predominaram as piores características tanto da comédia brasileira quanto da argentina.

Li alguns críticos e ouvi João Moreira Salles se desmancharem de elogios para SOB A PELE, o thriller de ficção científica de Jonathan Glazer – ou, como é mais conhecido, o filme em que Scarlett Johansson seduz homens solitários na rua e aparece nua. Eu tinha perdido no cinema e vi agora num belo arquivo Full HD. Beleza não falta nas imagens que variam entre o pseudo-documental nas ruas de Glasgow e as super-estilizadas ações da extra-terrestre. Requinte não falta no trabalho com as locações escocesas. No entanto, para mim, faltou todo o resto. Nem as gordurinhas de Scarlett, nem as pretensões de um roteiro cheio de buracos propositais pode esconder a obviedade da fantasia adaptada do romance de Michel Faber. Ora, como argumento para cinema, não há muita originalidade na história de uma extraterrestre que atrai homens para serem transformados em bacon (passando por deformações à la Francis Bacon) e, depois de se deparar com um cara deformado e se olhar bem no espelho, começa a ter lampejos de consciência humana, passando a ser perseguida por seus superiores. Sem contar o desfecho boboca, ainda mais decepcionante. Para dissimular os lugares comuns, Glazer e o corroteirista Walter Campbell fizeram o possível para esconder as costuras e motivações do enredo, oferecendo em troca um vazio perfumado em que o espectador pudesse se sentir “inteligentemente confundido”. Como metáfora de predação sexual urbana, é inócuo e quase grosseiro. Como thriller, é lento e monocórdico. Uma bolha de estilo, e quase nada mais. Por fim, não engulo de jeito nenhum a informação de que vários caronas eram homens colhidos ao acaso na rua. Não, pelo menos, os que chegam a entrar no carro da moça, manter diálogo e ainda desembarcar, tirar a roupa e entrar no conto da gelatina preta.

 

2 comentários sobre “O Hotel, o anão e a extraterrestre

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

  2. Eu já havia agendado o Hotel Budapeste e sua crítica me deixa mais curioso (ainda por cima com essa referência ao admirável Verdoux), Pena que as salas fazem feriado.

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