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Sobre os filmes NOJOOM, 10 ANOS, DIVORCIADA e MANCHESTER À BEIRA-MAR  

No início de NOJOOM, 10 ANOS, DIVORCIADA, raro longa-metragem do Iêmen em cartaz no Cine Joia, a pequena Nojoom chega sozinha a um tribunal e, diante do juiz, pede para se divorciar. A partir daí, o filme da diretora Khadija Al-Salami (de quem o Festival do Rio de 2007 exibiu Amina) recobra a história pregressa da menina, vendida pelo pai em sua aldeia natal a um marido adulto, num dos tantos casamentos infantis que assolam a sociedade tribal iemenita. Nojoom sequer participou da cerimônia de casamento, pois tudo fora acertado entre o pai, o futuro marido e um corrupto juiz da aldeia. Foi estuprada na noite de núpcias, espancada e escravizada no trabalho. Quando tem a chance de fugir, corre para o tribunal.

Mais adiante, o enredo toma rumos inesperados envolvendo a família de Nojoom e a Justiça. O roteiro, um tanto abrupto no seu desenvolvimento, avança na exposição das razões profundas do casamento da garota. Sua irmã mais velha havia sido violentada antes de casar, o que arruinou a família. Na concepção de honra tribal, era preciso casar a menor antes que o mesmo lhe acontecesse, com a vantagem financeira advinda do dote. Ou seja, tratava-se de institucionalizar o estupro, algo considerado normal na zona rural do país.

A história, baseada em fatos verídicos, caminha para um desfecho suave e reconfortante, que parece querer compensar o espectador pela dureza do que viu até ali. A vitória das leis civis contra o código tribal soa um tanto fácil demais. Tecnicamente, o filme é bem realizado, com uma fotografia que realça a bela rusticidade das montanhas iemenitas e a perturbadora fotogenia da capital, Sanaa, a cidade de adobe.



Despontando como um dos roteiros mais premiados do ano, MANCHESTER À BEIRA-MAR tem ingredientes característicos do cinema independente americano quando pretende ser humanista e sério. Leia-se perda, luto, culpa, mal-estar. O personagem de Casey Affleck, um zelador de prédio com azar especial para lidar com fogo, passa por dois lutos, um no tempo presente e outro narrado em flashbacks. Com essa estrutura pretensamente sofisticada, mas editada de maneira às vezes inepta, Kenneth Lonergan se dispõe a mostrar como esse homem comum reage ao infortúnio e frente às oportunidades de superação que a vida lhe oferece: zelar pelo sobrinho órfão, iniciar um novo romance, mudar de cidade.

A intenção de tratar o drama em tom menor, cores frias do inverno e com muita música clássica – imagine um incêndio trágico ao som do Adágio de Albinoni -, se por um lado dribla algumas armadilhas melodramáticas, por outro nivela tudo num patamar prosaico. Enquanto os momentos decisivos são ocultados em elipses ou resolvidos em cenas-relâmpago (como uma tentativa de suicídio numa delegacia), longas cenas são consumidas em pormenores sobre funeral, testamento e tutela. As repercussões das tragédias nas respectivas famílias oferecem bastante material para quem vai ao cinema em busca de fofocas sobre a vida alheia revestidas com um leve verniz de cinema de arte.

Onde a proposta de Lonergan melhor se concretiza é na atuação comedida e tocante de Casey Affleck. Por causa dele, ainda pude me conectar minimamente com uma história fastidiosa, delongada e, a meu ver, bem pouco interessante.