Franceses perdidos no tempo e no espaço

Sobre FRANTZ e NA VERTICAL – 

É dura a missão do Festival Varilux, que a cada ano tenta vender a mediocridade dominante no cinema médio francês atual. Comédias banais, melodramas com gosto de Vieille Vague e dramas pseudochocantes compõem a maioria dessa oferta, deixando muito distante a imagem de uma cinematografia que gestou o realismo poético dos anos 1930 e a Nouvelle Vague dos 60.

FRANTZ pode ser visto como uma razoável exceção nesse panorama. O que mais surpreende no filme é a assinatura de François Ozon. Sem a malícia e o veneno light de seus filmes habituais, este é um sombrio melodrama de época com muitos sintagmas do “filme antigo”: despedidas em estações ferroviárias, enganos amorosos, confissão religiosa, viradas romanescas demais.

Na Alemanha recém-saída da I Guerra Mundial, uma moça trava contato com rapaz desconhecido que costuma visitar o túmulo do seu noivo, morto no front. Ele é francês e parece ter conhecido Frantz, o personagem-título de quem menos se sabe, mas que serve de liga entre os demais.

A trama, parcialmente baseada em “Não Matarás”, de Ernst Lubitsch (1932), ganha um aspecto mórbido à medida que todos se unem no luto e num processo de ocupação do lugar do morto. No pano de fundo, uma tênue mensagem pacifista e uma semente de reconciliação franco-germânica após o ódio da guerra.

Assim como o túmulo de Frantz é apenas simbólico, pois seu corpo ficou na França, tudo o mais é movido por mentiras e estratagemas dos dois protagonistas. Numa opção interessante, Ozon incorpora esse falseamento da realidade à própria narrativa. O filme “mente”, usando a passagem do preto-e-branco para a cor como um túnel entre o presente real e um passado suposto. Ponha-se na conta de Ozon, ainda, a insinuação de um vínculo homoafetivo, contribuição peculiar do diretor.

Ao optar por um estilo deliberadamente antiquado, Ozon acentua um anacronismo intrínseco à história. Sobretudo em relação aos pais de Frantz, passa a impressão de estar sempre à beira da inverossimilhança emocional. Não conheço o filme de Lubitsch, mas acredito que, pela reputação que tem e por ser quase contemporâneo dos fatos narrados, tenha lidado melhor com tamanho peso melodramático.

Lubitsch, na época, também trocou os filmes “leves” por esse drama carregado. Rodou em Hollywood um filme de coração alemão. Ozon, por sua vez, afrancesou as referências: poema de Verlaine, quadro de Manet, músicas de Chopin e Debussy, além da Marselhesa. A trilha original, contudo, plagia ostensivamente a 5ª Sinfonia do austríaco Mahler.



NA VERTICAL, egresso de mãos vazias do último Festival de Cannes, é um exemplo da inanição criativa desse cinema médio francês. Diretor chegado à diversidade sexual, Alain Guiraudie costuma ser elogiado pelo anterior “Um Estranho no Lago”, que não vi (correção abaixo). Nesse novo filme, ele põe em cena um estranho personagem que se reveza nas funções de roteirista de cinema, caçador homossexual, pai devotado e flaneur por estradas rurais da França.

Em suas andanças ao léu, Léo (Damien Bonnard, ator dolorosamente desprovido de carisma) se relaciona – ou pelo menos tenta – com três homens e uma mulher, mas passa a maior parte do tempo cuidando do filho bebê. Talvez haja aí uma ironia para com a onda de comédias sobre papais às voltas com esse tipo de tarefa. Talvez haja também a intenção de parecer desconcertante com os diversos cruzamentos de opção sexual e de faixa etária, como se Carlos Reygadas tivesse passado por ali numa vibe infeliz. Talvez haja, ainda, o propósito de soar metafórico com o subtexto dos lobos que ameaçam os rebanhos da região. Afinal, é preciso encarar os perigos de frente e permanecer de pé (na vertical).

Sejam quais forem as intenções de Guiraudie, elas se esfarelam num roteiro sem imaginação, diálogos paupérrimos, incongruências patéticas e arbitrariedades dramatúrgicas a dar com o pé. A fixação em primeiros planos genitais só faz enfatizar a gratuidade do filme em seu intuito de causar sensação onde só existe apatia.

Nota: Fui alertado pelo meu amigo Daniel Schenker de que vi, sim, e detestei “Um Estranho no Lago”. Devo ter desgostado tanto que me esqueci. Segue minha nota de 2013 sobre o filme:

UM ESTRANHO NO LAGO (vulgo “Pirocas ao Vento”) foi concebido como um filme maníaco. Cada sequência equivale a um dia, que começa mais ou menos da mesma forma (a chegada do carro de Franck) e se desenrola em tomadas repetitivas, sempre ao redor do lago. A cena final reafirma a condição de Franck de prisioneiro do lago, vale dizer do seu próprio desejo. Esse aspecto maníaco se reproduz nas práticas sexuais dos gays que frequentam o lugar, sem outros laços aparentes e entregues à realização muito rotineira do sexo. Do masturbador obsessivo ao rapaz que busca uma relação um pouco mais romântica e “normal”, passando pelo observador supostamente desinteressado, é a interdição que dá as cartas bem mais que a liberalidade. O paroxismo da interdição é a morte, que progressivamente transforma o filme de idílio gay em thriller de suspense. Nesse ponto, UM ESTRANHO NO LAGO reforça o velho conceito de “Cruising/Parceiros da Noite” associando a homossexualidade clandestina ao perigo de morte e ao impulso de autodestruição. Mas não foi isso que mais me indispôs com o filme, e sim a gratuidade da trama, a implausibilidade da relação entre Franck e Michel, a linguagem rigorosa utilizada num argumento inconsistente. Quanto às pirocas, bem-vindas sejam num cinema machista que só dá vez às piriquitas.

3 comentários sobre “Franceses perdidos no tempo e no espaço

  1. Certeiro, Carmattos. Realmente o cinema francês dos últimos tempos não tem feito jus a seus predecessores. Frantz me frustrou bastante. Muitas “sobras”, sequências alongadas desnecessariamente, tolas pistas falsas. E a verdadeira relação do francês com o falecido não era difícil de adivinhar. Creio que o mediano Ozon se saiu melhor em “Dentro da casa”.

  2. Excelentes as duas abordagens. “Frantz” pode ser o melhor filme de Ozon, a meu ver (o que pode nem dizer muito, mas, enfim: funciona dentro de seus limites. Já “Na Vertical” é pretensão para enganar deslumbrados com coisinhas “pour épater”, recurso pobre para se fazer notar. Má notação.

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