Os guris e os gurus gaúchos fazendo arte

Zeca Brito lança a comédia de adolescentes EM 97 ERA ASSIM e faz sessão especial no Rio do documentário de arte GRUPO DE BAGÉ 

“Em 97 Era Assim”

Comer uma capa da Playboy era sonho inatingível para os quatro garotos gaúchos que protagonizam EM 97 ERA ASSIM. Mas pelo menos perder o cabaço num puteiro de Porto Alegre era questão de honra. O filme faz a crônica de uma adolescência regada a cerveja, masturbação, paqueras mal sucedidas e lágrimas por “Titanic”. Este é o terceiro longa do operoso Zeca Brito, antecedido por O Guri e Glauco do Brasil, e sucedido por A Vida Extra-ordinária de Tarso de Castro e Grupo de Bagé (veja comentário abaixo).

Um pouco mais de trama, e teríamos um American Graffitti do sul brasileiro. Mas Zeca e o roteirista Léo Garcia (com quem dividiu a direção do doc sobre Tarso de Castro) optaram por desenvolver uma única situação central: os expedientes dos guris a fim de conseguir dinheiro para pagar uma noite gloriosa na sauna mais trilegal da cidade. Em torno desse eixo, giram muitas observações sobre a puberdade na época. Lá estão os games movidos a disquetes, as enciclopédias em papel, os videocassetes eróticos disfarçados em capas de desenho animado, a internet tão lenta que o tesão acabava antes que a imagem da moça baixasse na tela do computador. As festinhas, as espinhas, os papos furados, a ansiedade e as inseguranças da fase de formação.

Talvez vá aí uma certa dose de ingenuidade nas caracterizações, mas é inegável a boa dinâmica do quarteto, com as figuras clássicas do tímido, do impaciente, do nerd, etc. Além de uma simpática interação entre os atores e uma narrativa fluente, o filme diverte pelo uso da música. Aí se incluem algumas versões hilariantes de Leo Henquin, que sublinham as fixações libidinosas dos personagens. E ainda uma participação impagável de Jean-Claude Bernardet como o diretor da escola, responsável por “enquadrar” os indisciplinados.

EM 97 ERA ASSIM vem se somar a uma filmografia sulista dedicada a evocar o passado juvenil, juntando-se a “Deu pra Ti Anos 70”, “Verdes Anos”, “Houve uma Vez Dois Verões” e “Meninos de Kichute”. O filme de Zeca Brito entra com vaselina nessa lista.

De Bagé para Brasília e o mundo

Glênio, Glauco, Scliar e Danúbio

Depois de agitar na ficção com os quatro moleques de Em 97 Era Assim, Zeca Brito se dedicou a um documentário sobre quatro grandes artistas plásticos que iniciaram carreira na mesma Bagé (RS) onde ele nasceu. Um deles era Glauco Rodrigues, que o diretor já retratou por inteiro no fascinante Glauco do Brasil. Os outros foram Carlos Scliar, Glênio Bianchetti e Danúbio Gonçalves. Eles formaram o GRUPO DE BAGÉ, título do novo filme, que terá uma exibição especial no próximo dia 21, às 18h, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, com entrada franca.

Muito compreensivelmente, alguns entrevistados se perguntam como uma cidade pequena e remota como a Bagé dos anos 1940 pôde ver nascer um movimento artístico do porte do chamado Grupo de Bagé. Mas logo somos informados não só da viva cena intelectual bageense da época, como das relações que aqueles pintores e gravadores estabeleceram com a arte mexicana engajada, através do Taller de Gráfica Popular da Cidade do México, e com a pintura europeia por ocasião de estadas na Itália e na França. Ainda assim, a geração espontânea e a autodidática têm lugar de peso na formação dos integrantes do grupo.

Críticos de arte, curadores e artistas jogam luzes sobre a história do quarteto, suas influências, suas similitudes e diferenças. Um traço comum é a mobilização da arte no sentido de representar a sociedade brasileira de um ponto de vista político. Fosse na pintura de inspiração francamente socialista de Scliar, membro do Partido Comunista, fosse no “tropicalismo social” de Glauco, ou ainda na figuração realista de trabalhadores e do cotidiano em Glênio e Danúbio, tratava-se sem dúvida de uma arte agudamente crítica e propositiva.

Se Scliar e Glênio foram perseguidos pela ditadura pós-64, isso não os impediu de serem depois “institucionalizados” pelo sistema da arte e terem hoje suas telas nas coleções dos palácios de poder em Brasília. Numa das muitas cenas de busca de obras, um funcionário do Planalto guia a equipe numa filmagem do gabinete da presidência e pede que a câmera se restrinja aos quadros e evite filmar o espaço ao redor. Era pouco depois do golpe, e Temer, ao que parece, já tinha tudo a temer. Isso não é dito no filme, mas, por ironia, a Djanira que Dilma mantinha na parede havia sido substituída por dois artistas comunistas do Grupo de Bagé.

Cheio de insights curiosos e inteligentes dos entrevistados, GRUPO DE BAGÉ nos mostra uma conexão pouco conhecida da arte moderna brasileira e uma contribuição regional de grande monta. No uso do aparato documental, é particularmente interessante a forma de mostrar desenhos e gravuras sendo manuseadas. Isso empresta movimento às cenas e dá um sentido de revelação quando cada obra é descortinada de trás de sua capa de proteção ou trazida à tona de seus “esconderijos”.

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