A “cura” que adoece

O MAU EXEMPLO DE CAMERON POST 

Pelo menos 700 mil LGBTQs já fizeram terapia contra a homossexualidade nos EUA, onde a prática é permitida legalmente em 36 estados. A informação vem nos créditos finais de Boy Erased: Uma Verdade Anulada (lançado no Brasil somente em DVD), mas poderia estar também nos letreiros de O MAU EXEMPLO DE CAMERON POST. Ambos os filmes têm à frente jovens submetidos por suas famílias cristãs a um programa de conversão heterossexual. Chega a ser incompreensível que prática tão obscurantista tenha lugar em pleno século XXI.

Cameron é uma menina flagrada pelo namorado enquanto trocava uns amassos com a namorada secreta no interior de um carro. Órfã de pai e mãe, Cameron (Chloë Grace Moretz) é enviada pela tia para a instituição God’s Promise, especializada na cura de uma “doença” chamada AMS (Atração pelo Mesmo Sexo). Os métodos são semelhantes aos vistos em Boy Erased, incluindo “icebergs” para os “discípulos” investigarem a parte encoberta de seus “desvios”, exercícios físicos para redescobrir o corpo com Deus (Blessersize) e a pregação constante contra o pecado da confusão de gêneros.

Os dois filmes têm protagonistas que resistem cética e criticamente ao tratamento. Através das hesitações e auto-inquirições deles, o espectador pode aferir o absurdo do processo, as hipocrisias e o sofrimento oculto que estão por trás das supostas histórias de sucesso da “cura”. Nos dois casos, a narrativa se organiza por flashbacks, e uma tragédia dentro da clínica acelera a decisão final dos personagens centrais.

As semelhanças muito óbvias entre os dois longas terminam por aí. Enquanto Boy Erased, voltava-se mais para a relação de Jared com seus pais e colegas, deixando a experiência dele próprio em segundo plano, Cameron Post segue em rumo distinto. Adaptando o romance de Emily M. Danforth, a diretora Desiree Akhavan – chamada por The Times “a mais proeminente bissexual de Hollywood” – optou por colocar a subjetividade da menina no centro de tudo. Antes de se internar, Cameron tinha uma vida sexual desenvolta e menos atormentada. Sua interação com dois colegas que também não renunciaram a sua personalidade vai pavimentar a conduta da garota. Daí ser o seu filme mais luminoso e afirmativo que o outro, apesar de caminharem na mesma direção.

CAMERON POST fica um pouco aquém do que um tema tão grave poderia sugerir. De qualquer maneira, coloca em cena um dos mais graves retrocessos de moral e comportamento a que nossos tempos de neoconservadorismo religioso estão sujeitos. Vivemos o oposto dos anos 1960 e 1970, numa espécie de reação retrógrada às conquistas germinadas naquele período. O “mau exemplo” de um filme como esse pode ser inspirador para a resistência.

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